(Foto de José Delgado)Foto de José Delgado

Bola, corda, tesoura, água, girafa, rebuçados, cores, notas, preparava-se a mesa, com a ajuda de todos. Montaram o circo, no circo da vida. Como na vida penteavam-se, alinhavam-se e, aos berros, para se fazerem ouvir, chamavam.

– Ó Joeeeeel, tens uma p’ra mim e uma p’ra Sónia?

Cada um açambarcou o mais que podia das ofertas do carro caravana, porque a vida é parca no distribuir, por aquelas bandas. Nas caras de uns chamados, à última da hora, lia-se o que pensavam “Mas que estou aqui a fazer? Evito passar neste bairro, o ano todo” – desconfiados agarrados à carteira, à máquina ou aos livros, pensavam “já que aqui estou, vamos lá ver no que isto vai dar.”

O espectáculo começou das bolas aos fios, às cordas, e aos nós cegos que a vida lhes dá, certamente as fitas, e quem cá vem? “sou, sou eu, eu, eu”, “dá-me, dá-me, dá-me”, com as palmas a soarem forte, com o ruído necessário à ocasião, uns com as duas mãos, outros com mão a bater na perna do filho, ao colo, como se sempre o tivessem segurado naquela posição.

O circo ia ocupando o seu espaço à volta da assistência. No entanto, as verdades chovem por todos os lados.

-“Só se lembram dos ciganos quando há votos”- gritam uns que se mantém afastados.

Bola, corda, tesoura, água, girafa, rebuçados, cores, notas (que o bom cigano vê melhor a contra luz não se vá dar o caso de a mesma ser falsa). É mesmo mentira. O mágico esqueceu-se que as mentiras têm perna curta e que aqueles que estão a ver o espectáculo, de um lado, só querem descobrir a farsa – não de frente como é suposto – pois de lado apanham muito mais do que a verdade encoberta pela magia, na falsa magia feita à vida.

Todos se apressam a chegar mais perto do mágico. É ele que agora lhes conduz a vida e todos querem, ao menos por uma vez, entrar em cena.

“Dá um beijinho no avô” pedia um ancião que raramente vê os netos a não ser quando a “cidadania” vai ao bairro.

E dá-se o milagre da reprodução dos rebuçados.

“Isto já foi treinado. Que pensam?” continuava a rapariga que estava decidida a não se deixar enganar.

“Ó mãaaae… anda cá. Quem subiu a corda ao poder do ilusionista?”

E furou. Saiu-lhe o tiro pela culatra ao tentar desmascarar o ilusionista. A assistência, como na vida real, comeu gato por lebre.

“Nunca percebi como estes gajos fazem isto? Sou sempre enganada.”

“É a função deles, enganarem-nos.”- respondia outro, do outro lado.”

E querem todos, mais uma vez, estar bem no centro das atenções. Ser o escolhido no palco do mágico, cheio de poder sobre a vida. E da vida, dessa, foi entregue a cada um, um pedacinho de papel. Um nico que lhes pertence, por direito. Amarfanharam o pedaço de papel como ordenado. Bem amarrotado o colocaram num saco e, mais uma vez, pelo truque do momento, apareceram os rebuçados, no seu lugar.

“Ó Carmen, já viste bem como nos comem como papalvos?”

“É assim no circo e na política, Jerome.” gritou-lhe Carmen com um sorriso cínico a rasgar-lhe os lábios vermelhos. “E foge dos favores desses aprumadinhos, não venham a obrigar-te a matar o porco antes da engorda.”

Oh Senhor mágico, só os bem comportados é que têm direito?

Olhe que não. Olhe que não.

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