Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
in “o distraído”

Rodou a chave, entrou no apartamento. Foi directamente para o quarto. Sentou-se na cama e agachou-se para descalçar os sapatos. Enquanto tirava mecanicamente o do pé direito e metia a meia dentro, seguindo do esquerdo, ia pensando: “Que dia! Estou exausto.” Passara doze horas a operar. Ao passar pela UCI ainda pegou na folha da ficha da doente a quem acabara de extrair um tumor no cérebro. No mapa de serviço escreveu: “tumor maligno completamente erradicado.“
Levantou-se da cama para desapertar as calças. Ouviu um ruído de água a correr no quarto de banho. Deu três passos, tentou abrir a porta, mas não conseguiu. De repente percebeu que a maçaneta não era a da sua porta. Parou. Estendeu a mão para o interruptor da luz. Não o encontrou. Olhou à sua volta. Na quase sombra do quarto viu uma mulher deitada por cima das roupas da cama. Nervoso dirigiu-se para a porta onde seria natural haver outro interruptor. Encontrou-o. Ligou-o. Viu-a com as mãos juntas presas à cabeceira da cama e um lenço vermelho a tapar-lhe a boca. Ela esbugalhou-lhe os olhos e acenou que não como a pedir-lhe que não fizesse barulho. Luís fechou a luz, apressou-se para ela e segredou-lhe:
– Entrei na casa errada. Moro aqui ao lado.
Acenou e Luís desapertou-lhe as mãos que logo o envolveram num abraço suplicante. Pediu-lhe:
_ Não grite. Está mais alguém aqui? – e retirou-lhe a mordaça.
Ciciou:
_ Está no quarto de banho. Deve estar a tomar banho. Leve-me daqui, por favor. Leve-me depressa.
Saíram os dois daquele quarto, daquele apartamento e já na rua, ao frio, embrulhada no seu sobretudo, com a cara escondida pela vergonha e pela emoção contou-lhe baixinho:
– Conhecemo-nos num bar. Dançámos. Bebemos. Trouxe-me. Quando cheguei amarrou-me, e… Soluçava ainda abraçada ao seu pescoço. Tremia dos pés à cabeça. Luís envolveu-a com força. Era jovem e bela. Pousou-a em cima da cama, agora no seu quarto e ainda agarrada segredou-lhe ao ouvido:
– Confia em mim. Sou médico. Toma um banho quente. Veste estas roupas e dormes aqui.
Por entre a porta disse-lhe.
– Vou para o Hospital. Durmo lá.
_ Por favor não me deixes. Fica comigo.
Quando saiu do banho deitou-se ao seu lado, num pijama largueirão, beijou-o lhe o peito e num misto de ternura e desejo confessou-se:
– Sou tua, nas mãos abertas ao agora, te deixo pedaços de minh’alma.
Olhos nos olhos: ficou.

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