ceu ICP

Foto de Isabel Costa Pinto

Quando não sabes onde estás nem para onde vais só há mesmo uma solução: ir. Se não o fizeres arriscas-te a cristalizar, a virares estátua: nem morta, nem viva.

“confirma-se. é um tumor maligno.”

Não sai nada. Pegas no lápis, começas a escrever nadas sobre nadas. Acabas por construir um vácuo, um silêncio volumoso, nesse espaço. Não. Nesse lugar inerte deixas entrar todo o tipo de mensagens. Moedas a cair dentro de uma máquina de tabaco, outras a caírem directo da ranhura à saída, por devolução. Algumas caem no chão e cruzam-se com o vapor da máquina do café e o bater sincopado no bife, com o chocalhar dos pratos e chávenas mais o som seco dos bules de inox.

“confirma-se. é um tumor maligno.”

– António venha cá, por favor: um café.

I just call/ to say/ I love you – diz o rádio – à mistura das teclas to portátil de uma mulher mesmo em frente a ti que faz o relatório da vistoria à segurança do estabelecimento. A colher do café bate no pires. Chega a tosta mista ao cliente do lado. Continuas a escrever. A lápis. Há quanto tempo não escrevias a lápis.

“confirma-se. é um tumor maligno.”

Acenderam-se as luzes do café – olhaste para o relógio – 19:00. Temporizador. Ou pensaram que estavas a precisar de luz para escrever – o dono é muito atencioso e, a lápis, não é fácil ler ao fim do dia. E sim, precisas de luz, e muita, mas não desta.

“confirma-se. é um tumor maligno.”

O som da extensão a sair da tomada. A mulher do relatório vai-se embora. Acabará em casa o resto que acabou de alinhavar. Já tem tópicos. Tens três cones de apara-lápis à tua frente. Perfeitos. A mesa em que escreves bambeia – como de costume. Sentas-te sempre numa mesa que bambeia.

– Olá Alzira. Boa tarde.

“Estou viva, a escrever este monte de nadas, mas o médico matou-me”

Pagas e o dinheiro é, mais adiante, atirado para o meio do tabuleiro naquele som costumeiro.

O médico olhou-te sem pestanejar:

“confirma-se. é um tumor maligno.” E tu? tu escreveste este texto, a lápis, porque nada melhor conseguias fazer; não hoje, depois da notícia que acabaste de receber.

Cristina Brandão Lavender

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