Dizem que o espelho nos grita verdades, mas a maior parte dos tempos pode estar a contar-nos mentiras descaradas, daquelas de todo o tamanho, aquelas que querem que sejamos, aquelas que querem que vejamos. Gosto de escolher as verdades em que acredito, e, no dia seguinte, já não sou o que era ontem, e há dias em que não reconheço de todo quem ali é. Sim, discutir com ele, por muito estranho que pareça, acontece, e por muitas vezes. Grande aldrabão me saíste, cristal, cristalino. A menopausa, as rugas profundas e as sombras descaídas com que dás os bons dias não mostram hoje o que sou, como também não mostravas quem era quando tinha os catorze, os quinze ou, mais tarde, vinte, trinta ou quarenta, dizias tu, quando mais madura. Claro que é bom não perder a realidade de vista e pegar nos cacos, para que tudo comece a encaixar-se, a fazer sentido, mas naturalmente, não como tu queiras, cristal, cristalino, seu bardamerdas.
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