A coragem, determinação e vontade firmes que eu tive e mantive degrau a degrau, enquanto subia ufano ao topo do mundo, apagou-se de rompante. Fui mingando conforme a distância aumentava.
Olhei para baixo. Vi o fundo da piscina e imaginei que me despenharia ao tocar na água. Senti a embater-me contra um muro de cimento. Fechei os olhos. “Cobarde. Agora que cheguei até aqui não tenho mais volta a dar. Tenho que saltar.” Sinto o estômago em fibrilação. Recuo dois passos. Inspiro e expiro várias vezes até que decido voltar à posição de assalto. Ando meio tonto dois passos lentos para trás e para a frente. A medir a arena. Um pé à frente, o pé da decisão, o arrojado. O outro pé, atrás, é o da prevenção, do tino, do medo – ambos me ligam no viver. Bambaleio ligeiramente; sinto que a tábua da prancha mingua tanto em comprimento como em largura, como a qualidade da minha vida – sem espaço de estar. Arrependo-me de ter ido à piscina naquele dia. Arrependo-me de me ter gabado que conseguia saltar de cabeça da prancha mais alta. Arrependo-me sempre de qualquer coisa. Eternamente a tentar provar aos outros que era bom – para ser adulado. Queria conquistar a aprovação dos amigos, o respeito. De repente, sento-me na borda da prancha para fazer o em-pranchado de cabeça naquela posição. Nádegas na borda, pernas para baixo. Quando abro os olhos tudo piora. Torno a inspirar e expirar. Verifico a segurança da posição da prancha debaixo não vá ela tirar-me a vida. Sempre o medo de morrer. Sempre o não arriscar. Nunca fora bom em resoluções. Precisaria de muito mais coagem para voltar a descer as escadas. Dizer um não. É tão importante saber dizer um não. Lanço as pernas para trás e agarro-as com as duas mãos à altura do joelho com o rabo levantado da prancha. Deixo as pernas ganharem lanço para a frente e levarem o corpo todo com a força do lanço a dirigir-se em direcção à água. Enquanto vou no ar penso: “Se morrer serei um herói, mais um herói morto”.
Entrei na água de cabeça. Nem chapa dei. O agora tinha resultado. Sim. Convicção, coragem e força no momento. Por si. Desde aí entrei de cabeça na vida. Por mim.

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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