velho quadro

Os leitores ligados estão desligados e os desligados ligados?

Não sei. Duvido até que possamos colocar a questão em termos tão lineares e contraditórios. Nada é só preto. Nada é só branco. Temos uma infinidade de tons de cinzento pelo meio e, por sermos humanos, podemos acrescentar-lhe todas as cores que quisermos.

Era meio-dia quando consegui chegar. Peguei no telefone e fiz o download da foto da mulher para o computador central. Entrei na base de dados da Agência de Segurança Nacional e fiz correr o programa de identificação internacional para tentar saber a sua identidade.

“Macacos me mordam se não é ela.”

Isabel recostou-se na cadeira de olhos fechados enquanto esperava que as fotos com as identidades começassem a surgir através das semelhanças de pontos biométricos do rosto. Há dois anos atrás, a avó Mariana, no leito de morte, fez-lhe prometer que não só a procuraria como a haveria de encontrar.

“Atrás do quadro do avô, – com a voz sumida – atrás do quadro do avô.”

As lágrimas corriam-lhe e os olhos cinzentos fixaram-me. Apertou-me a mão com uma força que eu desconhecia que tivesse ainda.

“É a tua verdadeira mãe. Amava-te, mas foi obrigada a fugir. Prometi-lhe que serias feliz. És feliz, Isabel?”

“Muito. Amo-te muito, avó. Deste-me a capacidade de lutar por tudo aquilo em que acredito, a capacidade de sonhar, de ser útil, de rir e de chorar. Sim. Sou feliz. As tuas palavras ao longo da vida fizeram de mim o que sou hoje. As histórias que me contavas estão gravadas no meu ADN. Amo-te, avó. Só isso importa. Só isso vale.”

Apertei-a, num abraço longo. Assim partiu. Assim fiquei, não lembro o quanto tempo.

Fui atrás do quadro do avô. Desfraldei-o por detrás, com cuidado, e encontrei um envelope amarelado. Cartas e algumas fotografias. Li e reli. Digitalizei. Processei toda aquela informação, nos silêncios, nos bulícios do dia-a-dia.

Recostada, na cadeira, Isabel continuava perdida em memórias. Não havia dúvida de que a avó fizera dela uma leitora ligada. Uma leitora ligada à palavra, ao homem, ao mundo. Ligada ao ser, desligada do ter. Com ou sem sociedade de informação e comunicação, digital ou analógica, estamos ligados ou desligados, mas o que nos caracteriza mesmo é a nossa humanidade.

Plim, Plim, Plim. O computador acabara de sinalizar três identidades ligadas à foto da mulher que ela hoje recebera de Lisboa.

A Velha-Escrita na Casa do Professor, 6 de maio de 2015

Cristina Brandão Lavender

 

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