curvas 1 isabel costa pinto

Foto de Isabel Costa Pinto

Corre, em frente a ela, a esta página em branco, como corre o pensamento, inquieto, à procura de um momento de magia, com a magia de um momento que não é mais sofrido, mas é silêncio;
correm nela – nesta página de vida – os últimos segundos deste último ano, aquele que varreu a alma com o sofrimento, porque corre nela (vida) este sôfrego desejo de viver como os meninos de deus, essa gente de bem que é gente de beijos e de abraços sentidos;
corre, em tropeções, o amor compactado por milhares de séculos, impregnado de identidade por milénios de anos-luz, em células do organismo vivo que corre: só para ele, especial;
corre com as ideias sempre dentro de parênteses, com as palavras ditas em rajada à procura de um travão que desacelere este desejo de o engolir (tempo), e de lhe pertencer (espaço): eternamente;
corre para ti, amor, com um sorriso e uma alegria tão intensa e verdadeira como a tristeza e as lágrimas das angústias anteriores, aquelas que venceu, aquelas que agora põe em banho-maria dentro do peito, tolerando-as, suportando-as, incluindo-as no rasgo da razão, sem delas escarnecer, sem nelas se morrer;
corre então com as linhas a estenderem-se ao comprido, com palavras cinzeladas, umas vezes hiperactivas, noutras tranquilas, sossegadas, mas sempre cobiçadas;
corre (página em branco) à procura de si e de tanto ela correr para ti, decidida a ser tempo de se dar tempo, estender-se de papo para o ar, na praia branca, molhada por um mar azul, em trato íntimo, e assim dar-se-lhe, em doses recomendadas. É que enquanto corres, página de vida, descobriu não ser nada sem ti. Por isso, enquanto está em paragem, faz o que sabes melhor: corre.

Cristina Brandão Lavender

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