Esta página abriu-se, alva, fria, insensível, mas nunca ameaçadora, estava pronta para começar a preenchê-la de caracteres minúsculos, negros, perfilados militarmente, sem que fossem dadas tréguas ao teclado, ele, também, aprumado, à espera que os dedos vorazes o tocassem. As palavras, essas que refere, nascem primeiro no coração e ali ficam a aquecer-se em ternura ou revolta, em desespero ou alegria, em confiança ou suspeição, filosófica ou intuitivamente. Quando chegam à cabeça são já imagens que rolam como diapositivos à frente dos olhos, da esquerda para a direita, sem parar, a maior parte das vezes como chicotadas estridentes em costas de escravos que anseiam pelo terminar do castigo, sem gritar, impondo o seu orgulho e valentia ao senhor, déspota e cruel, enquanto o escravo, sim, não tem outra palavra melhor que lhe chamar, teima em não se dobrar perante o assalto à sua dignidade, num silêncio altivo, para desespero do tirano, ao não lhe permitir possuir a sua alma que a ninguém pertence, nem mesmo à morte, propriedade apenas dele e, neste momento, também desta página em branco.
Lembra o tempo em que as palavras eram silenciadas, proferidas livres apenas entre quatro paredes, mas se estas também têm ouvidos, mais valia que fossem do agrado daqueles que impunham um pensamento único de sujeição e concordância, deixando a propaganda lavar as mentes com explicações morais, humanistas, civilizacionais, e que tudo se desenrolasse sem ondas, a preceito da regra imposta, dando o poder a uns, à custa do sofrimento de muitos.
Lembra as palavras gritadas quando Zola fora apanhado a dormir debaixo de um cacaueiro, castigo marcado para o meio-dia, no centro do terreiro para que todos assistissem, na hora de mais calor em S. Tomé, onde a humidade quase chega aos cem por cento. A sineta tocara forte a chamar os trabalhadores e também as mulheres e crianças obrigadas a reunir-se à volta do tronco. Exemplar pretendera-se que fosse. Naquela semana não fora à escola por estar com paludismo e estava sentada à escrivaninha a estudar, com o livro de Matemática aberto na página com problemas de medidas de peso. Correu para a varanda e percorreu-a a toda a volta. O terreiro não se via dali, pois ficava no centro das casas onde os serviçais moravam, a uns quinhentos metros da casa mãe. Nana não a deixara sair, mas a teimosia e a velocidade de uma criança de dez anos são armas difíceis de parar quando o coração já salta pela boca mediante o terrível espectáculo que iria acontecer.
Quando ali chegou já o chicote assobiava cobarde, no ar, pelas mãos do capataz, e caía nas costas de Zola, impiedoso, seco, soltando as primeiras gotas de sangue. As crianças escondiam as caras nas saias das mães enquanto estas, com lágrimas nos olhos, encobriam os rostos dos bebés de encontro aos seus ombros, impedindo que vissem a desonra, a vergonha, o opróbrio imposto a um dos seus, cujo único crime teria sido dar ao corpo o descanso que este lhe pedia. Nãaaaao, gritou, o mais alto que pode, enquanto corria em direcção àquele homem de faces gordas, luzidias, vermelhas, sempre a pingar de suor, que viera de Viseu por crimes que nunca soubera, não podes fazer isso, nem tu, nem ninguém, para continuares terás de o fazer em mim. Ouviste? Em miiim.
E as palavras que ouviu, à noitinha, da boca do avô, do pai e da mãe nunca as esqueceria, enquanto as medidas de peso davam voltas à cabeça, imaginando que cada chibatada deveria levar muito mais do que cem quilos de humilhação: nunca mais, ouviste, nunca mais te metas em assuntos que não são de crianças.
Mas as palavras têm o poder de fazer pensar, organizam-se militarmente em fileiras, caractere a caractere, dando sonhos à vida, laços aos povos, vontades a quem as diz, e a página em branco, nunca ameaçadora, tornou-se catarse de um pesadelo de criança.

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