estrada isabel costa pinto

Foto de Isabel Costa Pinto

Perdi-me de ti, palavra. Perdi-me do teu sentido como quem se perdeu no mar, por correntes e ventos contrários. Perdi-me de ti, palavra, quando deixei que pensamentos adversários se embebedassem das coisas vãs do dia. Perdi-me de ti, palavra, quando vi crescer as ervas do jardim e não senti préstimo algum, em tirá-las. Perdi-me de ti, nas manhãs, quando deixei de ver o sentido do teu toque na pele sequiosa de ti. Perdi-me de ti, palavra, quando deixei de perceber amor, no olhar com que me poisavas.

Perdi-me de ti, palavra, quando não encontrei resposta para a crueldade do poder das nações e ser esta “injustiça” a lei do mundo. Perdi-me de ti quando me deitei no tédio, quando conversei com o pensamento e quase o destruí quando senti a pequenez do “ser criado para morrer”. Descobri, em dor, a infinita distância entre ti, felicidade e qualquer outra verdade. Perdi-me de ti palavra ao não sentir alívio por te dizer estas coisas, apesar do esforço imenso de que a dor humana seja trabalhada para se suportar. Será que está, neste tanto sentir, a cura do sofrer? Chegou o momento em que ao perder-me de ti, palavra, escrevo, para convencimento de todos, que a maior das injustiças é a de ser nascido para morrer. Foi perante este paradoxo que me agarrei à existência da alma, que com a morte se vê num espírito e continua a viver. Perdi-me de ti palavra quando me perdi de ti, alma, e perdi o tempo: a chorar-te.

Cristina Brandão Lavender

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