escritor-formacion

Lembro-me dele com saudade. Não escrevia por obrigação. Ele escrevia com aquela febre de quem o faz porque tem mesmo de o fazer. Fazia-o com pele de galinha, vestindo a pele dos lobos e de todos os fantasmas que o cobriam, atazanando-lhe o silêncio, a tranquilidade que nunca sentia, tirando-lhe o juízo do momento. Escrevia, escrevendo, assim como vivia: vivendo. Ele queria ser lobo e vestia-lhe a pele: a pele do silêncio, a pele do grito, a pele da palavra escrita. Quando questionei esse amigo escritor sobre qual era a pele que mais vestia respondeu-me, sem hesitação, que era a pele do medo, mas que “quem não queria ser lobo não lhe vestia a pele”. Com a caneta “BIC” entre os dedos metendo, na boca a tampa que mordiscava sem se dar conta, pensava, sei que pensava, em tudo o que o medo lhe fazia. Disse-me, mais tarde, que o medo que lhe adormecia os demónios fazia também com que viessem nuvens de anjos comandados por um anjo-da-guarda. Este, por sua vez, fazia desaparecer aquele cheiro a poder que se apoderava da humanidade, o poder de mais poder ter, o poder de manter pela força e não pela razão, o poder de não poder ser humano porque da humanidade já não restava grande coisa.
Tirou a “BIC” da boca e disse-me ao ouvido, em despedida:
– A criança que ainda mora em mim, numa réstia sobrevivente, sabe que há ainda uma pele de toque de seda, para além desta outra de toque rugoso, por vezes fria ou quente, na qual me oriento, na qual adormeço, com a qual me apresento e na qual me livro deste padeço. Hoje, em nós, desenho os encontros e desencontros deste país. Na pele das encruzilhadas da alma, encontro os teus olhos cegos, e em braile, tu pele, que vês como ninguém, tens cartografada o mapa infinito, sobrevives no respiro desta pele de escritor que não desiste de vencer o medo.

Partiste e agora sei-o: venceste. Lembro-me, com muita saudade, da pele de escritor com que sempre te li.

Cristina Brandão Lavender

All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove