Foto de Jorge Santos

o pensamento do desassossego mergulha em ti

por mantos de trevas azuis
tais fantasmas a rondarem o dia
despertando um frenesim imprudente
pondo fim a qualquer ousadia
 o pensamento do desassossego
tingido de névoa pela noite
navega o mar da ideia surpreendida
sem vergonha nem piedade
de ti,
por ti perdida
quando pleno de maldade
te esgana pela vontade
vem o pensamento do desassossego
assalta-te a nau vergastada ao vento
faz-te dormir de olhos abertos
trémulo a algum sinal
uma sombra em forma de punhal
que passa, espeta, atravessa
se aloja na ferida e diz:
“infelizmente, és ser mortal”
este pensamento do desassossego
vai de seguida em espiral prolongada
ao vértex vertebral
desfere estrago feroz, brutal,
vigoroso
deixa-te sem tento nem apego
nervoso
à míngua, à sorte, ao frio atroz
tenso
invisual
vetado de razão e pensamento:
animal em alvoroço
esmaga-te o ser
em forte desespero
vida sem meta nem final
golpe sólido e letal
este ser de enorme pavor
obrigado a enfrentar a morte

é o pensamento do desassossego
Cristina Brandão Lavender
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