Tu sabes? Sabes? Tu, por um acaso, pensas nisso?
Tremo quando te vejo. Porque será que esse estremecer é tão bom e vem tão de dentro? Nem sabemos determinar o ponto do onde.
Mas confesso aqui, AOS BERROS, para quem quiser ouvir, que foi o medo que me fez fugir de ti. Uma cobardia. Tantas vezes disseram que convenceram: “devemos estar atentos ao sentir diferente e não tentar, em nenhuma circunstância, descobrir algo novo no sentir; que a vida acabou para a novidade; que tem de ser o que é agora: uma maçada, um aborrecimento, uma monotonia, um rame-rame. E foges.
Tu sabes? Sabes? Tu, por um acaso, pensas nisso?
Tu por acaso tens consciência que analisava, conhecia cada palavra tua, cada gesto teu, cada músculo que se prendia, cada trejeito do cabelo, da mão em cima da mão, do braço, da orelha? Que enchia as minhas inseguranças de explicações para não sentir. Que ouvia e acreditava que o que dizias era para nós. A ti que quando te via virava logo a cabeça; que deixava o coração disparar; que te seguia.
Tu sabes? Sabes? Tu, por um acaso, pensas nisso?
Já não tremo. Já não explico nada porque não há nada para explicar. Que aquele estremecer já não é; que já não tenho medo; que a cobardia desapareceu, que mal apareça um sentir renovado, algo que mate de vez esta maçada, que faça com que o tremer aconteça, me deixarei ir. Quero confessar aos berros: o amor não é lá grande coisa quando perde a novidade. Porque a novidade não tem a ver com o ser novo. Tem a ver com o ser diferente.
Tu sabes? Tu ao menos pensas nisso?

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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