Nas Linhas com Cistina Brandão Lavender

Viagem de 1877

Peço detalhes do Paraíso E da raça humana que é única, A resposta vem no vento morno Montada na estrela do norte Mostra-nos, Musa de Neptuno, Onde descansar a cabeça.   Chegam luzes e sombras de um povo Paleta de aguarelas do mar, Onde aportaram caravelas Levando novas de Portugal.   No porão vão gentes acorrentadas Expostas como carnes a comprar Grilhetas de ferro, aos pés, Que não prendem os pensamentos Nem nunca os poderão amarrar.   E ouvem-se cantos que nascem Para esquecer os braçados, Ao som de tambores ritmados Fazem coro, os pássaros da ilha, Dançam e expelem diabos A fim de enterrar mais um dia.   E que as trevas se cerrem de vez numa caverna de negro basalto, Porque alma que geme e que chora Desperta e grita bem alto A liberdade de Ser. CRISTINA BRANDÃO...

Bebé Angola

Cerram-lhes portas à ajuda E pariu a mãe, na poeira da rua, No primeiro choro deste bebé Angola Sai um grito de guerra ao roubo de um povo E a luta é nossa, mas primeiro é tua....

liberdade

Atiraram-nos a liberdade à cara No campo, no mar e na cidade Liberdade, liberdade, liberdade Gritaram gargantas Liberdade, liberdade, liberdade Cantaram os lábios Liberdade, liberdade, liberdade Choraram olhos castanhos Em caminhos, praças, jardins Mas a liberdade não é chegada De tanto recuar tropeçou na rua Bateu com os cornos, toda nua e quase que morreu assim Levantaram-na com fractura de crânio Acordou do coma, hospitalizada Oi liberdade tens alta, irmã renegada Liberdade, liberdade, liberdade Mas não mais só na palavra Que nos atiraram à...

todos os dias

Todos os dias quero. Quero viver até não poder mais, Que seja por um momento, os tais impossíveis de esquecer, Quero ir a trabalhar, Quero ir a rir, a sorrir, a escrever Quero ouvir o silêncio de cada vácuo, Quero ser e estar num pleno, Quero dar forma ao pensamento, Num pedaço de barro, de granito, de pincel, de clave. Quero dizer que valeu o respiro, Cada segundo, Cada ápice, Cada asa de vento Que a ti, A nós, Deixou feliz. E se uma estátua construir, Que veja com olhos cegos, Que fale com lábios cerrados, Que abrace com braços apertados, Que ande com pernas de liberdade E que grite o poema da vontade. 14 de maio de...

quantos são os que

Quantos são os que lavaram as mãos
na grande merda que fizeram?
Luvas brancas, gravatas de risca fina,
fato azul marinho, missa ao domingo
ou sempre que a consciência pede ou o sono se perde,

pintei tudo de azul

vem um vento frio cheio de almas de gente que carrega a guerra em sapatos poeirentos
são suspiros últimos de quem se entrega nas asas da morte que já veio

vem um vento frio que traz infernos a arder nos desertos
são a ignorância, são a espada que corta a razão e se alimenta de medo
(…)

porta

o dia encontra-nos de mansinho pede licença para entrar entra e abre caminho apaga o negro do quadro pinta, de uma nova cor, futuros aparece no arco-íris lembra a dor e o amor do mundo e escreve. faz-se em riscos e rabiscos em linhas e entrelinhas traçando entre agoras e amanhãs um imenso mapa nas linhas das pedras da calçada. e enquanto te ouço leio-te e escrevo-te a alma encontro-me então no sorriso abraçada ao teu eu construo uma nova ala por onde te deixo espraiar para que me encontres com ela com o mundo nas pontes nos elos no norte e o no sul na vida entre o quadro negro de uma infância de giz e o sonho da utopia que ensina mas que nem sempre se aprende um alvo ser...

sopro de vida

quando fica o carinho estéril e seco
quando a razão sugada
se esvai solo adentro
vem o desassossego que se instala
num falso momento
de um deleite suave e demorado
para que num último sopro de vida
com as palavras lavradas
se faça como devia de ser
a vida

quando te toco

no gosto de te tocar vem a palavra,
vem a poesia e tudo muda.
é intenso, é pureza,é momento.
é o sentimento mais virgem que conheço.
e é novo, tudo novo para mim, de ti.

viver

“viver, ai viver
viver só o é se intenso
num intensificar do palatum
num espremer do tempo de um relógio de Salvado Dali
viver é a loucura de ver um segundo eterno, no presente
um momento
mas viver também é parar
enroscar-se a preguiçar no silêncio
perder-se no espaço volátil do suspiro
viajar numa lufada de veneno
tremer com o vento
e com um sorriso”

sobrevivente

sobrevivente,
mostra-me três feridas:
a da vida
a da morte
e a do amor
e ama ainda mais
porque o amor
cobre tudo
sara tudo
seca as lágrimas
e abre um sorriso
enquanto te cobres de chuva

coragem

O medo prendeu a alma. E acalmou.
Teve um arrepio. Olhou.
Pensou nos contras. Paralisou.
Esvaziou-se de coragem. E fugiu.
Perdeu a viagem. E tolheu-se
Anulou-se à vontade, e caiu.

partir

contigo, parto para uma terra nossa
parto contigo em meu peito,
enterra-se este jeito, sem jeito,
mas agarro o momento, no agora
e levanto-me de vez
deste leito

por estes tempos

a tirania do medo
fura por estradas do caminho,
fecha atalhos, trilhos e sendas
semeia chãos de poeiras e pedras
abre feridas, em corpos de guerra
ata, em discórdia, linhas de bala
encerra, a pregos, janelas da alma
aprisiona ideias, numa cela quadrada
tudo leva, e corpos traga

loucos

e os pardais pipitam desde o dia amanhecido
segredam que a humanidade é a mesma
que loucos a irão salvar
mas que loucos também a levarão a enterrar
e quando o ocaso se aproximar
entoarão também outras melodias
porque morrer por morrer
que seja a denunciar estes dias

cisma

cisma
essa dor do peito que apertas
é tua e não veio de repente
encheu-se de cisma
veio quando te assaltou o homem
aquele que gosta de sangue e se pela por uma boa desgraça
turbe que prende o mundo
com elos de egoísmo
numa visão vazia de gente

ilusão

porque é ilusão esta máscara de amor
porque desta vontade se alimenta este ser
porque na tanta sede de teu corpo
cego fico de tanto te querer

denúncias

aquilo que nos salta no peito
este tambor compassado
grita ao vento e à razão inteira
melodias e traços manchados
em aguarelas contínuas, esbatidas
deste astro perdido
depois de achado

minh’alma

Estas palavras livres abrem portas no jardim. só para te ver minh’alma vestiu-se de seda voou, transparente, aquecida, até se acolher num véu preto fixado no teu...

5 lágrimas por Alepo

Nem cinco, nem quatro, nem três
as lágrimas que consigo brotar
descubro aterrado, mais uma vez vez,
que não sai uma sequer destes olhos
aqueles que embatem em vidros de écrans
e que dizem apenas não com a cabeça,
porque o coração, a vontade e a razão estão mortos
e, por assim empastado de sangue e pó o entendimento,
descobre que cruel e desumano entre os animais
é só homem
e ninguém mais

sentidos

Prá Terra ligam-nos
ouvintes do vento

serão com verdade e tento,
no conteúdo e na substância,
estas mensagens truncadas
de onde cessa a quietude.
revelam-se em sussurro os murmúrios,
o lento êxtase da eclosão.
sentados em ânsias,
apresenta-se uma turbe de fantasmas.
vultos esborratados em escuridão.

frio

Vejo com os olhos da lua que o sol já se foi
mas os homens não se importam.
Vai um frio na alma que se deixou de queixumes
de um inverno na terra
da frialdade humana
e deixa uma friagem no peito que se aquece dos infernos
de uma luz tímida da vergonha dos homens
de um silêncio de pânico nos olhos de criança
que o terror de mãe sente gelado
o útero prenhe
de um planeta que erra.

foto de Isabel Costa Pinto

Mãe

Mãe disseram-me que esperas por mim amanhã
sei que vais estar sentada no teu lugar favorito
(…)

última carta de um refugiado

podemos morrer hoje, mas não de bombas

podemos morrer hoje nos trilhos das montanhas a andar ou a chorar, a ouvir o gemido de velhos, homens, mulheres e crianças mas não do ódio do meu irmão

podemos morrer hoje, mas não de bombas

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