A carta estava pousada em cima da mesa e estava, estranhamente, assinada por ela.

Escrita há uma semana. Na escuridão da gaveta, a treva da vida.
No comprido corredor do Hospital de Braga esperava uma consulta. Era rotina. Era mais uma tentativa de encontrar uma droga para as dores, na consulta da dor crónica.  A dor do corpo falava pela dor d’alma. Desde que perdera o útero perdera-se com ele. Gritava por alguém que a quisesse. Não era mais mulher. Tinha medo que ao tomar banho lhe saísse água pela boca. Era um tubo vazio. No lugar de onde lhe saíram os filhos não havia nada. Por onde entrara o louco prazer do esperma que os concebera: nada.
Saída de casa, saía do mundo.
Sabia que não podia dizer ao médico por que dói tanto a existência e a falta dela. Mais uma saca cheia de medicamentos para a moléstia.
Levantei muito cedo.
Ele escrevera uma carta e guardara-a, apressadamente, na gaveta da secretária quando chegou do escritório. Vi sem querer. Ele, muito ansioso, entrara e enfiara-a rapidamente. Foi um acaso. Seria a única vez de o vasculhar. Rasgava-se por dentro enquanto rasgava a carta. Silêncio, e a mentira, tomara conta de tudo.  Das refeições. Da casa. Do sexo.
Dividiam as divisões como quem corta as metades do pão a torrar por doses. Por onde um andava o outro ausentava-se. Tudo de costas voltadas.  Estavam numa relação cheia de espaços, cheia de silêncios, cheia de ausências. Cheia de nadas.
Lembraste como não conseguíamos viver um sem o outro? Agora a minha beleza não se perdeu, mas ganhou novas formas. Queria que soubesses de cor cada centímetro meu juntamente como conheço as novas formas do teu.  Agora? Agora que mais devíamos ser um do outro, esquecer o que é para esquecer, e lembrar o que é de lembrar. Agora que deveríamos saber melhor o que precisamos porque as certezas são as nossas defesas. Agora que o meu amor era tão grande que esqueci de vez o medo de não te pertencer. Nós, um puzzle completávamo-nos, encaixados, no prazer, momentos do tempo, do ser e estar na vida. Construídos peça a peça, em abraços fortes,
gozo de amantes, rotinas partilhadas umas com alegria, humor e amor outras chateados, rabugentos, impertinentes a precisar de estarmos sós. Ríamo-nos Conversávamos. Resolvíamos ou não, mas entendíamos as diferenças, os problemas da rotina, e, como rodas dentadas que encravam na engrenagem, continuávamos mais afinados ainda. Nós mesmos o fazíamos. Sempre uma peça mais para colocar no silêncio que era de ouro e que é, agora, amargo.  Agora, em direcções opostas.  Agora, não somos. A história mudou os nossos longes para ainda mais longe e eu não aguento este caminho em que me ancorei sozinha (emendou o em a).
Agora, porque me perdi de ti sem mim, conquisto o espaço para mim e alguém mais por ti.
Agora vou em busca de qualquer coisa que me prenda e guarde o existir, sem ti. 
Agora o meu sono já não é meu em ti.
Este mar flat de agora onde nunca descanso ou durmo porque pasmo de tédio por ti.
(Acrescentou por cima da linha)
Agora que preciso de uma saca de medicamentos para viver, para respirar porque não sou.
Não sou mais.  Não nos temos. Perdemo-nos.
Parto. De ti. De mim.
(Acrescentou)
Para um novo parto do caminho.
A que era tua.
Assinado (com lapiseira estava riscado o meu nome até o tornar ilegível e assinou)
Sahira.
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