Nas Linhas com Cistina Brandão Lavender

Semente da vida

Um costume que me acompanha desde que me conheço é o de trazer para casa sementes de frutos que comi por onde passei, para depois, com carinho, colocar na terra. Faço-o a conversar com ela e uma força que está nela, e que passa de uma forma estranhamente intensa para viver comigo, faz-me dizer-lhe enquanto a deito no lugar escolhido, aqui está o princípio que contraria e vence a morte ao nosso lado, aqui está a verdade que ninguém nos rouba, em ti permanece o que nunca acaba, depois de ti irão nascer muitas outras num perpetuar sem fim. Umas nascem outras não, mas as que morrem para viver lembram-me os Homens que nunca morrem porque vivem nas suas obras, e as que morrem para sempre lembram-me os homens que morreram sem...

perdi-me de ti palavra

Perdi-me de ti, palavra, quando não encontrei resposta para a crueldade do poder da nações, neste cruel facto quase que me afoguei por ser esta “injustiça” a lei do mundo. Perdi-me de ti, palavra, quando me deixei prostrar no tédio, quando conversei com o pensamento e quase vi destruídos o raciocínio e a vontade de lutar, para desmascarar essas relações do poder com humanidade. E embora saibamos da nossa pequenez do “ser criado para morrer” acreditemos que, enquanto respirarmos, não nos deixamos perder de inacção e que cada um faz o que tem a fazer.” in “palavra e alma” de Cristina Brandão...

À margem, os transparentes que sentem e são...

Vinco da página

Tenho um problema que não sei quem tem. Tenho marcadores de livros, muitos, e geralmente um em cada livro. Uso-os, até me socorro de outros, como tickets de estacionamento, recibos multibanco, folhas já usadas com escritos, listas que já não uso ou de que me sirvo para o dia, e outros, muitos outros, lápis, até ganchos do cabelo. Mas há sempre aquela vez em que tenho que marcar o livro o não tenho nada, o pânico instala-se e lá decoro o número da página em que estou, a juntar ao cuidado de ficar num novo parágrafo, secção ou capítulo, para mais fácil o reencontrar e recomeçar. Tudo, tudo, tudo menos magoar o livro com a dobra na canto superior direito ou esquerdo. Este gesto de marcar com um vinco aquele ser que carrega as palavras que me levam, me transformam, me deliciam é uma dor, uma afronta, uma cicatriz que não quero impor, uma falta de respeito que não quero cometer. E quando finalmente o faço porque tem que ser, não me perguntem por quê, mas acontece, o livro fica magoado e mais meu ainda do que era. Mas que sentimento é este que não me deixa pensar que é só um livro?Tenho um problema que não sei quem tem. Tenho marcadores de livros, muitos, e geralmente um em cada livro. Uso-os, até me socorro de outros, como tickets de estacionamento, recibos multibanco, folhas já usadas com escritos, listas que já não uso ou de que me sirvo para o dia, e outros, muitos outros, lápis, até ganchos do cabelo. Mas há sempre aquela vez em que tenho que...

amigo do peito

Dois amigos de infância. Dois. Apenas dois. Agora temos outros, também do peito, também da pele, que ocupam esse lugar especial, um cantinho único no nosso coração e que, estando ligado ao cérebro por centros nervosos intocados, se mantêm ali para que nos possamos deitar, enroscar, um quase ronronar de gato, buscar delícias e carregar a ternura essencial do existir juntos. Naquele tempo não havia Jardim de Infância, havia infâncias e havia jardins, o resto, que era tudo, eram tempos preenchidos e reinventados ao sabor da nossa imaginação. Oh, como era tanto. E é esse tempo, esse espaço, esse cantinho mágico, cheio de luz e silêncio, o local especial onde vamos buscar o amigo que nunca nos...

treze milhões de libras

Foi de treze milhões de libras o custo para a entrada no inferno na Torre de Grenfell. Este Dante povoou os nossos piores pesadelos durante dois dias e, por muito que o tentemos, torna-se impossível imaginar o desespero dos que ficaram aprisionados dentro daquele braseiro, ao ponto de atirarem aos céus os seus filhos e a si mesmos para não sentirem o horror de uma morte por queimaduras e ou asfixia. Os que se salvaram devem a sua vida aos Homens (sim com H maiúsculo) que, numa atitude solidária, não se preocuparam apenas em salvar a sua pele, e os avisaram acordando-os do seu sono inocente, sem esquecer os bombeiros que, também em completa agonia, os tentavam resgatar, quando viam que os sistemas de segurança do edifício se revelaram completamente inexistentes e ineficazes. Desconhecemos quantos ficaram aprisionados no horror das chamas, mas sabemos que um acto criminoso da pior espécie estará por detrás da tragédia daquela habitação social, já que no verão passado foram gastos treze milhões de libras, repito, treze milhões de libras, na renovação do edifício e, ao que se pressupõe, para melhorar as condições de habitabilidade do enorme edifício e dos seus habitantes, que se mostrou  um horrível monstro a devorar vidas humanas e, quem sabe, a vida de animais domésticos. Facturar materiais de qualidade e fornecer os de pior espécie é, com toda a certeza, um acto hediondo que esperamos ver punido com toda a severidade. Mesmo depois desta catarse de escrita não consigo segurar a revolta que me consome e, só não escrevo por vergonha e contenção, o que os piores instintos me aconselham...

detalhes do paraíso

(…) Somos (plural) povo de África, o “eles” são um “nós”, “um nós humano” que está ainda à espera de um pedido de perdão, público, geral e individual, dirigido a cada um dos países, por parte das nações esclavagistas e dirigido aos povos explorados, pelas sevícias por eles infligidas, pelas grilhetas colocadas, pelas humilhações físicas, psicológicas e culturais impostas, torturas sofridas ao longo de gerações e gerações, pelo assassínio de milhões de irmãos africanos, por um completo desrespeito individual e colectivo ao longo de séculos e de que ainda podemos ver resquícios no tempo presente. (…)

neste tempo que tempos vivemos

Neste tempo que se arrasta connosco há demasiado tempo de gentes cansadas que preenchem os tempos vazios (mas cheios de ódio e de maldade) apenas com suspiros de alívio por escapar: à justiça que não se faz, às bombas que não nos estraçalham, às balsas que se afundam sem nossos corpos, às mulheres que sempre se espezinharam, aos de pele diferente que sempre desprezamos, aos que clamam preces a um Deus que negamos, aos ricos que sempre roubaram, aos pobres que sempre se escravizaram, aos gritos dos que ignoramos, às lágrimas que não limpamos, aos doentes que não tratamos, às crianças que não ensinamos, aos jovens que não compreendemos, às mentiras em que nos escondemos, às verdades que ignoramos. Como esperar por tanto tempo o início da coragem que se vence por dentro e de dentro para fora, e não só aceitar, como também apoiar, trumps, pens, temers, maduros e outros que proliferam neste tempo presente? E, enquanto não chega outra vontade, não quero uma alma que sossegue com crueldade e sem juízo. Há dias em que o que o mais quero é uma alma...

não se procura nem se encontra

O amor é tão importante que não tem datas: tem dias. Todos. Porque o amor não se constrói, não se procura nem se encontra, não se cultiva nem se colhe, o amor está, o amor é, o amor tanto aparece como se desvanece, o amor é um estado etéreo permanente e quando raramente se sente, sabemos e ponto final.

Braga é outra, e a mesma coisa

Braga é outra, e a mesma coisa. Braga é aquela cidade que me acolheu enquanto a outra, onde nasci, me abandonou, por não conseguir mais dar de comer aos seus filhos, arrancando as grilhetas do sofrimento da humilhação. Braga é a cidade onde conheci o Inverno e pensei morrer de tanto frio por tão quente ser o dia-a-dia na ilha verde que é também do meu coração. Braga é a cidade onde as Tílias exalam um perfume tão doce que me faz ir à Avenida Central só para as namorar, mas onde as árvores ainda são decepadas para fazer nascer outras de cimento armado. Braga é uma velha cidade romana a transformar-se numa cidade da Europa, empurrando, de barriga cheia, para o lixo, a história que a encerra, à espera de abrir o livro onde escreva a sua identidade para a deixar ficar num registo vivo. Braga é a cidade onde “bou” e “bento” tem este som espectacular e em que os amigos se encontram nos cafés, pelas esquinas da arcada e da brasileira, pelos bancos dos jardins da cidade e da avenida, só porque sim, ou para falar de futebol e de política. Braga é a cidade que se aninha aos pés do Bom Jesus e da Nossa Senhora do Sameiro em penitência pelos nossos defeitos, que são muitos, enquanto reza o terço pelos pecados ainda a cometer. Braga é a cidade com mais igrejas do país, e ao olharmos para o horizonte distante vemos todas a cruzes que arranham os céus como agulhas de coser. Braga é assim das poucas cidades que ainda tem as portas dos...

professor

O professor deve ser um fazedor do pensamento, no sentido de construtor de ideias, de organizar debates de posições e, à partida, todas as ideias terão de ser válidas e inclusivas e as que forem descartadas, muito bem discutidas e fundamentadas. (…)

praxes

A grande maioria de nós somos contra todo o tipo de abusos não consentidos, e contra as situações degradantes, humilhantes e perversas a que temos assisto, ao longo dos anos, na cerimónias da praxe, em que estudantes “mais velhos” usam de um poder tirânico sobre outros mais “novos” academicamente. Essa soberania pérfida e maquiavélica em que se priva alguém da sua dignidade, através da humilhação pública, tem que objectivo? Mesmo que as situações sejam “consentidas” qual é a mensagem de quem as decreta e de quem as sofre sobre a comunidade que assiste? Por que razão os estudantes se deixam humilhar daquela maneira? É tudo uma brincadeira? E quando deixa de o ser? A aceitação pelos pares terá mesmo de passar pela submissão a situações desumanas, as mesmas que combatemos, que quereremos que desapareçam da nossa sociedade? Que posição irão tomar estes jovens, perante a humilhação durante a sua vida futura? Não, não me convencem a aceitar este tipo de acolhimento aos caloiros. No entanto, isto não tem nada a ver com o ver alunos a banharem-se, a molharem-se, numa fonte da cidade. Isso é mesmo uma brincadeira, na qual, pessoalmente talvez não participasse, mas não é grave, Quem quer vai, quem não quer sai, ou nem entra sequer, o que é preciso é não perder a capacidade de ajuizar e decidir se a situação se coaduna, ou não, com os seus valores e dos que estão à sua...

Island of Mykonos in the Cyclades Archipelago

(…) Oh Zeus, king of all the gods, what are you waiting for? Send the news about us from here to the entire world. And you, Athena, give us the wisdom to be just, protect the Arts but take war and bury it, where it cannot be found any more, or better still incinerate it in case human curiosity could disinter it. Hades, take care of the innocents that suffered death, take them to the stars and those with ill will to the underworld, whose shadows still crackle among the embers, which are already burnt, and those yet to be burnt. My Good Hera, protect the women and children, all of them filling up the Aegean Sea with tears of injustices that entangle them and Powerful Poseidon make a calm pathway in this sea that they have crossed, as they need the quietness of these waters of humiliating war, and give them a safe arrival to the firm shores of any continent, so that you, Oh Demeter can enter and protect our harvest of good will, which is all that we can offer. Persephone, do not say good bye now, (…)

ilha de Miconos, do arquipélago das Cíclades

(…) : Ó Zeus, rei de todos os deuses, de que esperais para dar, daqui, novas ao mundo inteiro, e Tu, Atena, dai-nos a sabedoria de ser justo, protegei as artes, mas levai a guerra, enterrai-a para onde não a possam mais encontrar, ou melhor incinerai-a que a curiosidade humana a poderia desencantar, Tomai, Hades, conta dos que se foram com a morte, para as estrelas ou para os subterrâneos da má vontade, e cujas sombras crepitam ainda neste carvão que já ardeu e no que ainda será, Protegei, Minha Boa Hera, mulheres e crianças, todas elas a encherem este Mar Egeu de lágrimas das injustiças que as enredam, e Poderoso Poseidon, abri uma vaga de calmia neste mar que atravessámos, precisamos da quietação destas águas de guerra dos humilhados, e fazei-os chegar seguros ao firme de qualquer continente, para que tu, Ó Deméter, entres, e protejas as nossas colheitas da boa vontade, que pouco mais (…)

um novo abecedário de letras velhas que aqui quer viver

inda os atentados ao património de Braga.

Braga, 4 de Maio de 2012

um novo abecedário de letras velhas que aqui quer viver

As letras não são mais as mesmas, há todo um novo velho alfabeto por aí a reinar, com um acordo ortográfico firmado que já vem do passado e que por aqui se quer escrever. Não creio nele, nem numa letra sequer, por tão baralhadas estarem e, com elas, os conceitos também. Não fio nem um chavo, ao que por aí se vai dizendo, não nado nas letras deste mar calmo, do “não faças ondas”, tudo se vai arranjar, que bonito ficará, e o tanto que se fez, não olhes para o passado que o que lá vai, lá vai, e isto é o que vês. (…)

o que querem que vejamos

Dizem que o espelho nos grita verdades, mas a maior parte dos tempos pode estar a contar-nos mentiras descaradas, daquelas de todo o tamanho, aquelas que querem que sejamos, aquelas que querem que vejamos. Gosto de escolher as verdades em que acredito, e, no dia seguinte, já não sou o que era ontem, e há dias em que não reconheço de todo quem ali é. Sim, discutir com ele, por muito estranho que pareça, acontece, e por muitas vezes. Grande aldrabão me saíste, cristal, cristalino. A menopausa, as rugas profundas e as sombras descaídas com que dás os bons dias não mostram hoje o que sou, como também não mostravas quem era quando tinha os catorze, os quinze ou, mais tarde, vinte, trinta ou quarenta, dizias tu, quando mais madura. Claro que é bom não perder a realidade de vista e pegar nos cacos, para que tudo comece a encaixar-se, a fazer sentido, mas naturalmente, não como tu queiras, cristal, cristalino, seu...

esses ou eles

Não sei se tristeza, se isso misturado com indignação, mas há algo de muito perverso quando se designam, todos os que são diferentes, por “esses”, ou “eles”. Acreditamos, mas também fazemos disso a nossa vida no quotidiano, numa igualdade total no ser humano, de género, raça ou credo. Acreditamos que só assim os conseguimos realmente conhecer e portanto, também, compreender. Não precisamos de comungar as mesmas crenças, nem os mesmos hábitos, nem dar as mesmas passadas, mas há respeito, há diálogo, tudo isto misturado, com alguma ternura. E como é bom. Com “esses” tais, ou com todos os “eles” diferentes, bem presentes em nossas vidas, temos ficado mais ricos com as suas diferentes abordagens. Gostamos quando vemos homens e mulheres, apenas como homens e mulheres. Passamos a ser com eles, a pertencer, a incluir, fazendo “amigos” de ocasião ou para toda a vida. São laços que nunca se perdem. No entanto, aqueles que os vêem como esses ou eles, são sempre os outros, mantêm uma distância que passa a ser tão grande como real, e cuja proximidade assusta, ameaça e incomoda. E quem trata o outro como inimigo passa a ter ali um inimigo. E “esses” ou “eles” não têm problema nenhum em os matar, em se matarem, porque não são da mesma espécie, passam, simplesmente, a inimigos para...

uma praceta de Braga

O centro da praceta do Largo de S. Martinho tornara-se o mundo. Sentira-se uno com ela, concentrando-se de dentro para fora, transmitindo um olhar orgulhoso, ora bem fundo em sim, ora em volta, olhos nos olhos, um a um, percorrendo o público que se ia aglomerando, em círculo, inspirando-o. Outras vezes, com a necessidade de sorver algo mais forte, olhava ao alto, onde parecia beber a força do poder de fazer o que tem a fazer, da razão do estar ali e do ser assim. O almoço equilibrava-se no pau retorcido e côncavo e o artista, todo entregue ao momento, segurava-o com firmeza, a dois terços do seu comprimento, palma para cima, músculos bem torneados, equilibrando, num lado, a cesta de vime vazia (imaterialidade da vida que abraçava) e, no outro, uma bola branca (o mundo que queria diferente). Bem ao limite, cabia-lhe evitar que se despenhasse, em cacos, por cima do espelho da mesquinhez, da avidez de quem dele se aproveita. O público já era muito, o poder da bola branca aumentava, o poder de alcançar o equilíbrio mais a adrenalina do momento estava ao rubro. Tinha nas mãos a magia do cajado de madeira, poder de há milénios desde que, segundo reza a história, se abriu, em dois, o mar Vermelho para o êxodo de um povo, com a esperança que acontecesse hoje o mesmo, para a fuga do povo Sírio. Urge evitar a queda do planeta em cada um de nós, mas, entretanto, o centro da praceta transformava-se num grande mundo. 6 de Abril de 2014 foto publicada com autorização de José...

42 anos, meu anjo

42 anos, meu anjo. Há 42 anos tirava o curso do magistério primário aqui em Braga, tinha uma motorizada sachs minor modificada branca e uma existência que bulia sem parar, sentia tudo muito muito, já escrevia também muito muito, fumava muito muito e muitos diziam que me drogava. Resmungava sem parar, distribuía panfletos revolucionários nas saídas das fábricas ainda com a tinha preta fresca a cheirar, e sorria sem parar, tinha um namorado, pois claro, de quem gostava muito muito, mas a tua chegada amor fez com que todo o muito muito ficasse com uma luz diferente, tudo muito muito mais claro amarelado e hoje, continua essa luz em nós. Amo-te.

opinião e ironia

(…) Esta é a minha opinião, não precisa de ser dito, está aqui e é o que será. Camões, não sou alma gentil que partiu, fui, sim, ao mundo, desde que a mãe me pariu, mas alma de gentilezas não sou, e pronto, ponto final. Ao mundo me obrigaram a ir, ao mundo me obrigaram a estar, ao mundo me obrigaram a (des)sentir, e ao mundo me obrigaram a ficar, este mundo que tem agruras em multidões, vasta semeadura de podridões, há milénios de gerações, que se escravizam a uns senhores. Pergunto ao génio preso na ânfora, o que é que afinal ainda nos resta, mas ele não diz o que ao mundo espera, nem ao sítio aonde ele chega, mas segreda que a alma aonde vai, o mais certo é que cai, quando subjuga uma por outra. E, Camões, assim declaro que não poderei cantar os feitos deste mundo, dos desfeitos serei pois um, e então que me fique aqui na rede, rodeada de árvores e pardais, e fique neste silêncio escondida, porque o mundo se sorriu, queria chorar e se chorar, um esboço de sorriso pariu, o da troça e da ironia, o da sobranceria e desamor. (…)

borboletas também são anjos-da-guarda

Sabes? quando procuro respostas quase impossíveis, quando os suspiros cortam o espaço com lâminas geladas, quando a ausência se transforma em páginas de silêncios demasiado longos, quando pedaços de tristeza se entranham no DNA do genoma humano, tu apareces, quase que chocas contra a minha face, e, numa energia universal única, escreves, varrendo no ar, um símbolo gestual de amor que só tu sabes fazer.

o que gosto quando chegada da primavera

Gosto de ver as pessoas a trazer a si o tempo mais quente, procurarem o branco para se vestir e calçar, combinando com outras cores claras ou com o clássico azul marinho. Gosto. Para o meu corpo continuo com os pretos e algumas vezes, os cinzentos, não só por viver este tempo pascal de reflexão, mas porque é ele que combina com o ser que tenho, alimentando-o, aqui e ali, com esperanças de um colorido natural. Gosto. Gosto de silêncios prolongados acompanhados por brisas frescas que trazem o aroma do jasmim e da flor de laranjeira do nosso quintal. Gosto de ouvir Schubert, por vezes de olhos fechados, outras enquanto converso com os olhos dos gatos e dos cães que se estendem indolentes, à volta do meu preguiçar. Gosto.Gosto do que preguntam e, de dedo em punho a deslize pelo vidro, escrevo sem muito pensar. Gosto.

preguiça

É quando deixamos que a preguiça se instale, tranquila, descansada, frágil, e nos envolva num abraço carinhoso, que ficamos mais atentos ao rodopiar dos eixos universais. E neste embalo do alerta que recebemos, por aparente incoerência, fazemos outros sentidos, uns novos, outros tão velhos como o homem.

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