Nas Linhas com Cistina Brandão Lavender

não te esqueças de voar

    “É isso que quero fazer todos os dias. Sempre que posso. Voar. Voar paredes fora no meio de outros. Não sou maria-vai-com-as-outras. Tu também não. Escolhes a tua companhia. Escolhemos. E deito-me à lareira, meio sentada, meio deitada, com os pés ao alto pousados na beira do granito. Encosto o livro às coxas unidas para o receber e parto. Se me dá para olhar para a lareira, a luz fica mais intensa, o calor mais aconchegado, o conforto mais amado. A posição é a melhor do mundo. O tempo pára ou avança, os espaços definem-se, a companhia aconchega-se. Tudo isso porque nas mãos tenho um. Quando não voo fico rezinga. Tudo corre mal. Torno-me feia por tão descontente ser o momento. Falta-me tudo. Necessito desse entrar nas letras das pessoas que precisam tanto das palavras como eu. Das pessoas que não dormem para as dizer. Das pessoas que não comem para as ler. Das pessoas que não vivem sem as falar. Das que vivem dos silêncios das parir. É isso. Voo. Vou. E indo, levo quem ama comigo. Quem não quer que não venha. Eu voo. “    CRISTINA BRANDÃO...

tinha a certeza

“(…) Não havia dúvidas. Tudo porque te vira. As dores deixaram de ser doridas. Existias. O tempo deixou de se arrastar. Vivias. A espera valeu o momento certo. Existias. Finalmente tu eras. E sentias.
Tinha a certeza que Deus a ouvira.”

peles

Não hesito por tanto te querer, e nesta força ciclónica do espírito, em comunhão do sentir de peles, entra a comunhão orbital lavada em ondas universais.

contigo III

“E parto para uma terra nossa. Parto contigo em meu peito, enterro o meu jeito, sem jeito, agarro o momento: no agora.”

contigo II

Fui noite dentro, em ti.
Fui e não pude esperar.
Fui e não voltei,
fui ali e fiquei.

amo-te, homem

– cá vamos nós outra vez.
que fazemos?
paramos?
– paramos, querida.
– pois. tu mandas, Homem.
– enquanto conseguir mandar, mantenho-te segura. quando não conseguir, tens que ser tu a segurar.

in “diário de uma freira”

A noite disse-me adeus. Eu, a Deus, me entrego. Quando acordo, vês-me, amor, a caminhar sobre rosas e hibiscos. Vestida de seda que me beija a pele, hoje mais sensual do que ontem, leio nos teus olhos o quanto me desejas sobre rosas e hibiscos a caminhar. Finjo ignorar-te. Este é o código do desejo do sexo cobiçado.

diário de uma freira

A noite disse-me adeus. Eu, a Deus, me entrego. Quando acordo, vês-me, amor, a caminhar sobre rosas e hibiscos. Vestida de seda que me beija a pele, hoje mais sensual do que ontem, leio nos teus olhos o quanto me desejas sobre rosas e hibiscos a caminhar.

Amo-te, Homem.

“Despir-me e despedir-me.” Sim, é uma sessão de striptease, esta que faço sempre que preciso dela. É excitante. Dá-me um prazer do caraças; acalma-me a inquietude da alma; umas vezes dói imenso, noutras faz-me rir ou sorrir de prazer, e, noutras ainda, chorar de dor aguda. Não as dispenso. São a minha humanidade. São as roupas da minha nudez.

Pé mu ê

Óla ê cá bi e cá bé cu bô. Tembé té óla n’guê cu cá sêbê di non cá bé té; óla dóno di vivê non té cá bé; óla cu inem cá tchilá non mon d’inem vé queté queté cu na cá bilá pê ni liba non fá; óla gá despigi de bô e gá flá Deçu cu bô bé; óla gá ficá sê xintido, gá fica sê sêbê, na cá quêlê fá, gá fica pagimado, cu auá uê ni uê. Tudo cuá cu cá ficá, óla bô na sá cu non fá, sá pudá, Pé mu ê, Sun na bé fá. Sun sá naí mé ni cabeça mu, ni zunto mu, axem mé, tembé té: Sun na sá naí fá. (Cristina Brandão Lavender)Tardução de Ana Mota...

bolon xinja

Ozé un nancê bolon xinjaNê modo pá pensáUn pegá ni li bôUn zunté ni plato di iô côlôUn conhê vlemê bá bá báCu outlô, outlô côlô, maxi glaviUn tendê vedé di supêUn pincela bô, un pinta bôZá ó, un ama bôNi bô: Un voá (Cristina Brandão Lavender)tradução de Ana Mota...

cu vlegonha

cu vlegonha mundo
gá tonoé, gá dança cu ê,
zó gá amé
a mim tan só sêbê…

envergonhada

envergonhada do mundo
vou tocá-lo, dançá-lo, amá-lo
se sei, o quanto sei
tirar-lhe o preto-e-branco

cinco gravatas

Colocou o colete por cima da camisa que ia por fora das calças de ganga. Estava formal e causal. Ficou feliz. Precisava de ir e mostrar que estava bem. Não interessava se não sabia o que fazer com a vida, se queria estar ali para logo a seguir não querer estar, se não sabia para onde se virar, se o seu casamento estava de frio a gelado, se os filhos não se sentiam bem e não se realizavam, se podiam muito bem desaparecer a qualquer momento com ou sem ela, se queria deixar-se de pantufas por casa.

pensas nisso?

Tu sabes? Sabes? Tu, por um acaso, pensas nisso?
Tremo quando te vejo. Porque será que esse estremecer é tão bom e vem tão de dentro? Nem sabemos determinar o ponto do onde.
Mas confesso aqui, AOS BERROS, para quem quiser ouvir, que foi o medo que me fez fugir de ti. Uma cobardia.

avistamento e confissão

O que se passou até chegarmos a Cinfães – único lugar habitável depois do avistamento – porque eles permitiram e desapareceram com a mesma velocidade com que apareceram, deixou-nos um espaço temporal em branco: inexplicável. Explico-me: o tempo contado pelo nosso relógio não correspondia ao tempo que realmente pudera ocorrer. O resto ficou com eles.

Como estamos nós? # 8 rotina

Nas li _____________________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “rotina.” Saía do metro. Acelerava embrulhada numa multidão impaciente. Não estava atrasada, nem adiantada: um minuto sequer. Conhecia os passageiros que com ela viajavam nos últimos dez anos. Adivinhava o seu humor à passada com que enfrentavam a carruagem. A sua companheira de viagem era, invariavelmente, uma mulher de mini-saia, collants remendados, loiro oxigenado, batom escarlate, pestanas coladas com rímel.Um encontrão projectou-a para um casal; voou desamparada de costas; longos segundos até cair. Alguém colocou os braços à sua volta. Soltou-se, virou-se para se afastar. Olhos verdes intensos fixaram-se nela. Abraçou-a: – Shuuuu, não te mexas.– Todos ao chão. Vem comigo: TU AÍ. – apontava a loira.De olhos fechados, abraçada: gelava. Ninguém se mexia, ninguém ousava. No Marquês as portas abriram-se. Passageiros a magotes entravam e saíam. Levou a loira de rastos. Do nada, polícias apareceram – disparos.Vi a loira esvair-se em sangue no chão; ele perdeu-se na hora de...

sentado no branco

Nas li _____________________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin”Sentado no branco.” Boa noite pessoal, hoje em branco. Muitas vezes assim. Acontece cada vez mais. Este estar em branco, um vácuo no olhar, um mar de nadas, uma catrefada de coisa nenhuma. É o vazio a existir. É assim. É isto.Branco.Um sentimento tão vago que pode ser do tamanho do que quisermos. Não. Não é uma contradição. Este sentimento de estar em branco não tem nada a ver com o sentir desconhecimento do assunto, nem com uma noite mal dormida. É mais uma certeza de que estando em branco não pertences ali; que tens uma página do tamanho do mundo a preencher; que poderás não ter tempo suficiente para o fazer; que nem sabes por onde começar e o melhor é mesmo uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.Branco.Com este vazio transparente só vi uma decisão a tomar e que vos pode parecer inusitada. Fazer uma última travessia física e psicológica no tempo que me resta. Muito ou pouco?Branco.Na mala vazia levo a satisfação imediata de dar sentido ao eu mais profundo, deixo para trás todas as camadas e camadas de momentos vividos, (horas, semanas, meses e anos), para começar tudo. De novo. Fica para trás o bater na mesma tecla, o tentar fazer o que estaria certo para agradar aos outros, o ram-ram do não consigo. Para pior já basta assim, para a frente é o conquistar de uma sucessão de espaços com mais significado, um existir mais verdadeiro, um encontro do ser e do estar. Não preciso de ter sempre razão. Nem preciso sequer de ter razão....

o distraído

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “o distraído” Rodou a chave, entrou no apartamento. Foi directamente para o quarto. Sentou-se na cama e agachou-se para descalçar os sapatos. Enquanto tirava mecanicamente o do pé direito e metia a meia dentro, seguindo do esquerdo, ia pensando: “Que dia! Estou exausto.” Passara doze horas a operar. Ao passar pela UCI ainda pegou na folha da ficha da doente a quem acabara de extrair um tumor no cérebro. No mapa de serviço escreveu: “tumor maligno completamente erradicado.“Levantou-se da cama para desapertar as calças. Ouviu um ruído de água a correr no quarto de banho. Deu três passos, tentou abrir a porta, mas não conseguiu. De repente percebeu que a maçaneta não era a da sua porta. Parou. Estendeu a mão para o interruptor da luz. Não o encontrou. Olhou à sua volta. Na quase sombra do quarto viu uma mulher deitada por cima das roupas da cama. Nervoso dirigiu-se para a porta onde seria natural haver outro interruptor. Encontrou-o. Ligou-o. Viu-a com as mãos juntas presas à cabeceira da cama e um lenço vermelho a tapar-lhe a boca. Ela esbugalhou-lhe os olhos e acenou que não como a pedir-lhe que não fizesse barulho. Luís fechou a luz, apressou-se para ela e segredou-lhe:– Entrei na casa errada. Moro aqui ao lado.Acenou e Luís desapertou-lhe as mãos que logo o envolveram num abraço suplicante. Pediu-lhe:_ Não grite. Está mais alguém aqui? – e retirou-lhe a mordaça.Ciciou:_ Está no quarto de banho. Deve estar a tomar banho. Leve-me daqui, por favor. Leve-me depressa.Saíram os dois daquele quarto, daquele apartamento e já na rua, ao frio,...

corpo desnudo

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “corpo desnudo” e banho-me de vestes compridasque se colam em meu corpo desnudo.marcam-se as formas secretasque a cegueira da paixão revelae o mundo inteiro...

amor proibido

Nas li______________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “amor proibido” se este amor proibidoentrar de manso em meu ventre,fica minh’alma mais tristepor não te poder tocar na fronte,porque tua fonte: não...

carteira de escola

Nas li_____________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDERin “carteira de escola” “Sentei-me numa. Molhava a pena no tinteiro de cor azul.Revela-se ainda nos trabalhos que sobreviveram ao tempo quando no início da palavra se percebe a tinta mais carregada. Outras vezes – se com um borrão apagado com um palito embebido em lixívia – ficava amarelado, escancarando a minha inconfidência pela falta de jeito e trapalhice. Este facto per si era causa para um intervalo sancionado.”...
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