Nas Linhas com Cistina Brandão Lavender

caminho desesperado

Caminho tão desesperado na europa, caminho desesperado deste miúdo de 13 anos, não, não tenho uma imagem dele, mas confio na vossa imaginação e apresento-o a vós. Muito de olhos como os que passam muita fome, braços esquálidos, muito de ossos, muito de barriga e que enfrentou calmamente o jornalista que o confrontava sobre qual a mensagem que teria para a pessoas da europa: (…)

direitos e deveres para o sr. primeiro ministro

Sr. primeiro ministro, eu percebi finalmente o que quer dizer sobre direitos e deveres quando o ouvi à hora do almoço. O senhor tinha o dever de negociar as medidas de austeridade de forma a ajudar o povo português, mas escolheu o direito de defender os interesses da banca e dos países mais ricos. O senhor tinha o dever de se colocar na pele dos que querem trabalhar e ter um futuro no seu país, mas escolheu o direito de os fazer emigrar e ir mostrar a sua competência para fora de Portugal. O senhor tinha o dever de não aceitar as políticas económicas que aumentam o défice e conduzem a sacrifícios inúteis, mas (…)

O algodão não engana, mas estes números: esganam

Os políticos estão convencidos de que uma mentira, já que repetida muitas se vezes, se transforma numa verdade, na cabeça das pessoas. Mas cuidado, o que acontece é que uma verdade dessas só leva a um caminho: dissimulação, negação da realidade, felicidade de perna curta. Mas o algodão não engana. Vamos então saber como vão os números de Portugal: (…)

custa muito?

Custa muito? vermos uma classe política gananciosa, arrogante, mentirosa e manipuladora que se mantém refastelada à sombra de uma banca que rouba os cidadãos com a governação de políticos sem escrúpulos. Ai pois não. (…)

Ana ou Maria

Ana ou Maria tanto se lhe faz. Ela foi colocada, desde que nasceu, no coração da tempestade. Tudo lhe foi difícil e intrincado, fazendo dela uma rebelde, uma lutadora de causas consideradas justas, independente das preferências individuais de sicrano ou beltrano. E que útil é, ser uma alma assim. Sempre atenta ao que se passa para logo analisar as ficções que vêm de permeio em discursos e contextos impregnados de metáforas. Para Ana ou Maria – tradicionalmente nomes portugueses, sós ou acompanhados – já chega destes recursos expressivos, assim como basta de ficção científica.(…)

Cristina Brandão Lavender

os leitores ligados estão desligados e os desligados ligados?

Os leitores ligados estão desligados e os desligados ligados? Não sei. Duvido até que possamos colocar a questão em termos tão lineares e contraditórios. Nada é só preto. Nada é só branco. Temos uma infinidade de tons de cinzento pelo meio e, por sermos humanos, podemos acrescentar-lhe todas as cores que quisermos. Era meio-dia quando consegui chegar. Peguei no telefone e fiz o download da foto da mulher para o computador central. Entrei na base de dados da Agência de Segurança Nacional e fiz correr o programa de identificação internacional para tentar saber a sua identidade. “Macacos me mordam se não é ela.” Isabel recostou-se na cadeira de olhos fechados enquanto esperava que as fotos com as identidades começassem a surgir através das semelhanças de pontos biométricos do rosto. Há dois anos atrás, a avó Mariana, no leito de morte, fez-lhe prometer que não só a procuraria como a haveria de encontrar. “Atrás do quadro do avô, – com a voz sumida – atrás do quadro do avô.” As lágrimas corriam-lhe e os olhos cinzentos fixaram-me. Apertou-me a mão com uma força que eu desconhecia que tivesse ainda. “É a tua verdadeira mãe. Amava-te, mas foi obrigada a fugir. Prometi-lhe que serias feliz. És feliz, Isabel?” “Muito. Amo-te muito, avó. Deste-me a capacidade de lutar por tudo aquilo em que acredito, a capacidade de sonhar, de ser útil, de rir e de chorar. Sim. Sou feliz. As tuas palavras ao longo da vida fizeram de mim o que sou hoje. As histórias que me contavas estão gravadas no meu ADN. Amo-te, avó. Só isso importa. Só isso vale.” Apertei-a,...

teste de gravidez

“Fevereiro. Mais um ser muito desejado se aninhava no emaranhado celular protector, laço bem atado ao coração de mãe. O resultado lido na caneta de teste era definitivo, peremptório, fechado: positivo.

-Mãe, porque estás tão linda?”

Timor

“Gritos estarrecidos ecoam nos céus iluminados de vermelho, chamas galopantes por mãos criminosas ateiam sem pensarem que são seus irmãos, também, os que ali sofrem. Lançam-se numa guerra fratricida, voraz ódio acumulado por várias misérias assentes na mentira de que onde nada há a perder, nem a dignidade se salva.”

Cristina Brandão Lavender

a alma do medo

“Neste tempo que se arrasta contigo, este momento vazio de ódio e de maldade, há um suspiro de alívio. Espero que seja esse o início da coragem que se vence por dentro e de dentro para fora. Se for peço uma alma que sossegue, que abrace o que amo, mas que viva na dignidade de uma humanidade que ainda sinto plena de crueldade e sem juízo. Há dias em que o que o mais quero é uma alma nova.”

nudez – texto autobiográfico

“Tomei então uma decisão para todo o sempre ou para o que resta dele: despir todos os falsos eus que construí involuntariamente, que não interessam, que atraíram uma busca imbecil de aceitação e de aplausos, até compreender porque assim agia. Sabemos, e bem, como isso sufoca e as opiniões são como as cerejas: toda a gente tem mais do que uma, mesmo que uma já fosse demais. Foi então que começaram as descobertas: …” CBL

foste pintada para isso

“Manel da Bica ajeitou a trouxa para todo o dia, encostou-se à parede e colocou-se a jeito. O coto da perna perdida na guerra do ultramar, bem à vista. Aquilo que mais queria esquecer, bem exposto à caridade alheia, num velho cobertor, tal bilhete de identidade esfraldado à compaixão. O casaco e as calças ficavam-lhe grandes e, de tão coçados, rematavam bem o trabalho de mostrar a dor e o mal a estranhos – um quadro perfeito para causar comiseração, dó, pesar, piedade.”

Cristina Brandão Lavender

Zé ia esquecendo

(…) Mataram vivo o Zé. Encafuaram-no naquele túmulo de pequena janela rectangular por onde apenas se via, se noite, se dia. Mas Zé sabia o que queria. E ali, trancado, sem óculos, impotente, molhado, coberto de matéria fecal, viajava de olhos fechados mundo afora, passageiro solitário, partindo em passeio, livre, parindo um planeta novo, numa mega obra: só dele e para ele.

Puta que os pariu: digo-te eu. Esta humanidade não é mesmo grande coisa.

Cristina Brandão Lavender

Pele de escritor

“Lembro-me dele com saudade. Não escrevia por obrigação. Ele escrevia com aquela febre de quem o faz porque tem mesmo de o fazer. Fazia-o com pele de galinha, vestindo a pele dos lobos e de todos os fantasmas que o cobriam, atazanando-lhe o silêncio, a tranquilidade que nunca sentia, tirando-lhe o juízo do momento. Escrevia, escrevendo, assim como vivia: vivendo. Ele queria ser lobo e vestia-lhe a pele: a pele do silêncio, a pele do grito, a pele da palavra escrita. ”

Cristina Brandão Lavender

Não se acredita no amor: ama-se.

Manuela sai do vestiário, bata ainda por apertar, e já se avia com uma fila de cinco pessoas para marcarem ou fazerem exames. Sorrira mal chegara ao guichet, juntara um bom dia, para logo de seguida atender o telefone – mais um utente a marcar – nenhum dia ou hora lhe era a jeito. Os olhos inchados denunciavam muito e o sorriso logo pela manhã uma verdade ainda maior: valentia. Mais um enxerto de pancada, desta vez porque o bife estava frio. Apenas isso: frio. Fechou os olhos e olhou a fila.

casei com uma feiticeira

Há condições de mulher que são muito desconfortáveis. Não que prefiras sentir-te como um homem. Não. Acentas num eixo de verticalidade essa tua feminilidade física e psicológica. Sentes-te, nalguns casos, e após tantos anos, como uma “mulher menos mulher”. Aquela tipologia que vinha nos manuais de zoologia dos teus antepassados e que ainda passou para ti na corrente genética e educacional, criou em ti incompatibilidades profundas. (…)

temos luta

(…)“Muito nos abraçámos nesse período.- contara-me. Sabíamos que mais-dia-menos-dia iríamos estar um sem o outro. Inspirei o cheiro, memorizei os traços da pele, tudo a guardar num chip de memória para usar à distância.”
Raquel continuou sob a ameaça de um despedimento que (…)

europa? qual?

Estou com esses dois terços. Vou na sua jangada e atraco em qualquer outro continente porque qualquer um é melhor que este. Não acredito nesta europa, não acredito nas classes políticas, não acredito nas suas políticas, acredito que existe uma manipulação desenfreada e perigosa à direita e à esquerda, enoja-me a maioria dos comentários que foram feitos e foi isso mesmo que fui lá dizer com o meu voto.

Deixo o diabo com Deus

– Amor, tens noção de que as verdades que nos gritam nas televisões e nos jornais sufocam? Naquele semáforo vermelho, o tempo parou, sabes? Estava escrito nele que chegava de inacção, de melancolia e de irritação. Isso não era coisa minha. Por que me esqueci de ti, da vida, do jardim?, de falar com as plantas?, de lhes retirar os pedaços mortos?, – ai como são bafejadas pela sorte – corta-se-lhes pontas secas e revivem, assim sem mais nem menos. Mas nós, nós quando morremos, morremos inteiros, na escuridão, no gelo do subsolo para os bichinhos comerem com sofreguidão.

na sombra dos tempos

Ponham-se finos, espertos e ladinos, com cuidado com as sombras, porque quando o sol vai deixando de brilhar, o que fica é um pedaço sombrio de país com as desigualdades e pronunciarem-se, com um sistema de saúde para quem tem dinheiro, com as leis a não se aplicarem, com um ensino de faz de conta, onde não se pense, e muito menos se critique porque esses, os que o fazem são uns chatos que não deixam o país avançar.

mirar o círculo

“Agora tenho que sonhar em ti. Um olho fechado, outro olho aberto, e miro, pelo círculo do vidro, este teu céu. Fujo da cidade, das janelas de onde não estás, porque sei que estás ali. No foco. No centro do mundo. Por ali. Um já ali tão longe. É por ali que te encontro. Não é sonhar contigo, é mesmo sonhar e assinar em ti todo o meu corpo. Uma assinatura que só tu conheces e reconheces. Sabes? tal como os pescadores da minha terra conhecem o mar e o cheiro dos vendavais que pressentem ao minuto, Sabes? como uma mãe pressente o acordar do seu nascituro antes dele acontecer, Sabes? como reconhecia tão subitamente como abruptamente que ia haver um grande terramoto em qualquer parte do planeta, e to dizia. Sabes? Pois é.”

gosto ou tenho de correr riscos?

“Sou contra tudo o que atente contra a dignidade humana. Pensei que poderia viver sem correr riscos, mas estava enganada. A humilhação a que o ser humano é submetido, neste país, faz com que as praxes académicas sejam consideradas brincadeiras de miúdos a beber sumo de laranja, numa tarde de verão. Senão vejamos. Vivo em Braga, cidade que amo e considero como minha segunda terra natal. No entanto, viver em Portugal, é correr riscos elevadíssimos. Por isso todos os dias digo à minha filha: – amo-te muito. Tem cuidado que anda por aí gentinha de muito má qualidade. Ligo a TV sem saber qual o canal em que vai estar e vejo um senhor que foi já primeiro-ministro de Portugal, fugiu para Paris, mas entretanto a poeira assentou, o povo pelos vistos perdoou e a justiça limpou. Consta que tirou o curso ao fim de semana, mentiu e ensacou dinheiro que era do povo, ganha agora mais uns milhares numa estação paga por nós, a dar opiniões sobre o estado do país. Eu não corro riscos: viva a corrupção! – filha, muda de canal, isto não é programa para crianças. Ao mudar fico mais descansada. É o Presidente da República que fala, por isso não podia estar em melhor companhia. Enquanto ouvia tudo, a boca não se fechou. Tenho que deixar que me praxem forte e feio, continuar a apoiar a corrupção, ficar bem calada, para bem da nação. – filha desliga a televisão, se te sentires humilhada podes sempre dizer que não. Eu não corro riscos por isso fico contente quando ligo para outro canal e ouço dizer...

criança mãe

Sonhava com uma boneca. Uma boneca igual àquela com que adormecia todos os dias. O pensamento projectava-se pelo cabelo todo emaranhado e impossível de pentear. Desgrenhado. Eriçado. O cabelo da boneca era o labirinto e as imagens com que adormecia a percorrê-lo comiam-na viva. Perdia-se no labirinto com que sonhava. – Mãe por que te pareces tanto comigo? És como a irmã que nunca tive mas não és como a desejo nos meus sonhos. O pai é como um irmão. Porque somos todos da mesma idade? – Porque tu nasceste. Eu tinha treze e o pai quinze. – Mas eu queria uma mãe e um pai como os outros. Vocês não sabem o que eu preciso. O mundo é-vos absolutamente desconhecido. Agimos todos de forma parecida. – Perdi-me no tempo. Perdi o rio das oportunidades. Perdi as ocasiões da vida. Podia ter abortado e ter-te perdido. Mas não quis. Não suportaria a perda. Sinto que te ganhei. Ganhámos-te. Agora és tudo em nós. Sei que por ficarmos privados de tantos momentos da existência ficámos coxos. Mas conseguimos ultrapassar algumas lacunas, esses vazios, esses desertos. A vida nunca mais foi a mesma. Como não a vivemos também não sabemos ensinar-te a história. És como um carro com peças feitas de pedaços de outros carros. Fomos rolando juntos. Precisamos de substituir mais vezes as peças. Andamos mais devagar, mas penso que conseguimos ir. Mais longe. Vais. Mais devagar. Aos poucos. Vais ver que vamos. Todos. Houve perdas. Mas não houve “a perda”. A perda de ti nunca a poderia suportar. Por isso és. Por isso somos. Por tentativa erro fomos continuando....

Avistamento

Em 1980 tivemos uma experiência de avistamento, encontro imediato, com um OVNI “objecto voador não identificado.” Não tinha, até aquele momento, qualquer interesse por esta matéria. A seguir, devorei tudo o que se relaciona com isso, apenas por algum tempo, até que se tornou repetitivo e desinteressante. Sou louca, mas uma loucura que revejo nalguma humanidade. Não mais louca ou menos louca e gosto da minha loucura: muito. É minha. Sou eu. Vimos (éramos dois adultos e duas crianças na parte de trás do carro a dormir) um objecto circular, a menos de 50 metros de nós: enorme. Foi na Serra do Montemuro, estávamos completamente isolados, sem aldeias na proximidade, de noite. Essa “nave” paralisou-nos o carro, e pairou do nosso lado direito. Ficamos assim sem possibilidade de continuar a viagem, sem motor. O rádio deixou completamente de dar. O vento que se gerou era circular e abanava-nos a viatura. O zumbido era inadjectivável, mas atrever-me-ia a usar “um sibilar diferente de tudo o que ouvira antes”. As luzes geradas pelas suas janelas encadeavam-nos, iluminavam toda a vegetação circundante e a estrada, giravam sobre ela e alternavam entre o verde e o amarelo extremamente brilhante: cego. Os seres que vi nalgumas das janelas estavam apenas interessados em nós – poderia quase afirmar: em mim. Fui eu que o vi no espaço como um ponto verde brilhante e disse: “Uma estrela verde!” Poucos segundos depois – contado pelo nosso tempo – estava do meu lado direito. O que se passou até chegarmos a Cinfães – único lugar habitável depois do avistamento – porque eles permitiram e desapareceram com a mesma...
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