Nas Linhas com Cistina Brandão Lavender

Semente da vida

Um costume que me acompanha desde que me conheço é o de trazer para casa sementes de frutos que comi por onde passei, para depois, com carinho, colocar na terra. Faço-o a conversar com ela e uma força que está nela, e que passa de uma forma estranhamente intensa para viver comigo, faz-me dizer-lhe enquanto a deito no lugar escolhido, aqui está o princípio que contraria e vence a morte ao nosso lado, aqui está a verdade que ninguém nos rouba, em ti permanece o que nunca acaba, depois de ti irão nascer muitas outras num perpetuar sem fim. Umas nascem outras não, mas as que morrem para viver lembram-me os Homens que nunca morrem porque vivem nas suas obras, e as que morrem para sempre lembram-me os homens que morreram sem...

À margem, os transparentes que sentem e são...

Vinco da página

Tenho um problema que não sei quem tem. Tenho marcadores de livros, muitos, e geralmente um em cada livro. Uso-os, até me socorro de outros, como tickets de estacionamento, recibos multibanco, folhas já usadas com escritos, listas que já não uso ou de que me sirvo para o dia, e outros, muitos outros, lápis, até ganchos do cabelo. Mas há sempre aquela vez em que tenho que marcar o livro o não tenho nada, o pânico instala-se e lá decoro o número da página em que estou, a juntar ao cuidado de ficar num novo parágrafo, secção ou capítulo, para mais fácil o reencontrar e recomeçar. Tudo, tudo, tudo menos magoar o livro com a dobra na canto superior direito ou esquerdo. Este gesto de marcar com um vinco aquele ser que carrega as palavras que me levam, me transformam, me deliciam é uma dor, uma afronta, uma cicatriz que não quero impor, uma falta de respeito que não quero cometer. E quando finalmente o faço porque tem que ser, não me perguntem por quê, mas acontece, o livro fica magoado e mais meu ainda do que era. Mas que sentimento é este que não me deixa pensar que é só um livro?Tenho um problema que não sei quem tem. Tenho marcadores de livros, muitos, e geralmente um em cada livro. Uso-os, até me socorro de outros, como tickets de estacionamento, recibos multibanco, folhas já usadas com escritos, listas que já não uso ou de que me sirvo para o dia, e outros, muitos outros, lápis, até ganchos do cabelo. Mas há sempre aquela vez em que tenho que...

não se procura nem se encontra

O amor é tão importante que não tem datas: tem dias. Todos. Porque o amor não se constrói, não se procura nem se encontra, não se cultiva nem se colhe, o amor está, o amor é, o amor tanto aparece como se desvanece, o amor é um estado etéreo permanente e quando raramente se sente, sabemos e ponto final.

42 anos, meu anjo

42 anos, meu anjo. Há 42 anos tirava o curso do magistério primário aqui em Braga, tinha uma motorizada sachs minor modificada branca e uma existência que bulia sem parar, sentia tudo muito muito, já escrevia também muito muito, fumava muito muito e muitos diziam que me drogava. Resmungava sem parar, distribuía panfletos revolucionários nas saídas das fábricas ainda com a tinha preta fresca a cheirar, e sorria sem parar, tinha um namorado, pois claro, de quem gostava muito muito, mas a tua chegada amor fez com que todo o muito muito ficasse com uma luz diferente, tudo muito muito mais claro amarelado e hoje, continua essa luz em nós. Amo-te.

borboletas também são anjos-da-guarda

Sabes? quando procuro respostas quase impossíveis, quando os suspiros cortam o espaço com lâminas geladas, quando a ausência se transforma em páginas de silêncios demasiado longos, quando pedaços de tristeza se entranham no DNA do genoma humano, tu apareces, quase que chocas contra a minha face, e, numa energia universal única, escreves, varrendo no ar, um símbolo gestual de amor que só tu sabes fazer.

o que gosto quando chegada da primavera

Gosto de ver as pessoas a trazer a si o tempo mais quente, procurarem o branco para se vestir e calçar, combinando com outras cores claras ou com o clássico azul marinho. Gosto. Para o meu corpo continuo com os pretos e algumas vezes, os cinzentos, não só por viver este tempo pascal de reflexão, mas porque é ele que combina com o ser que tenho, alimentando-o, aqui e ali, com esperanças de um colorido natural. Gosto. Gosto de silêncios prolongados acompanhados por brisas frescas que trazem o aroma do jasmim e da flor de laranjeira do nosso quintal. Gosto de ouvir Schubert, por vezes de olhos fechados, outras enquanto converso com os olhos dos gatos e dos cães que se estendem indolentes, à volta do meu preguiçar. Gosto.Gosto do que preguntam e, de dedo em punho a deslize pelo vidro, escrevo sem muito pensar. Gosto.

preguiça

É quando deixamos que a preguiça se instale, tranquila, descansada, frágil, e nos envolva num abraço carinhoso, que ficamos mais atentos ao rodopiar dos eixos universais. E neste embalo do alerta que recebemos, por aparente incoerência, fazemos outros sentidos, uns novos, outros tão velhos como o homem.

nem tudo o que parece, é

Nem tudo o que parece será, e nem tudo o que é realmente parece, mas o que é certo realmente, é que são sempre os inocentes que pagam. (relativo ao ataque no metro de S. PETERSBURG).

pijamei

Hoje pijamei. Não lembro de outro dia em que tenha pijamado sem estar doente. Pijamei a escrever. Pijamei a comer. Pijamei a ver televisão, amei a pijamar e farei uma outra infinidade de coisas neste enganoso conforto.
Sinto-me completamente pijamada, relaxada e pronta para despijamar amanhã.
Tenham um bom dia, amigos.

Jeroen Dijsselbloem

Jeroen Dijsselbloem, juro que não sei dizer este nome nem tão pouco isso me interessa, pois dizia que o dito cujo não passa de mais um frustrado imbecil, num pretenso cargo de chefia e responsabilidade. Ponham-lhe, então, os patins, e queiras, Ó Deus, que não os saiba usar, para partir os cornos que esta mulher do sul lhe pôs.

qual de nós fala na barca do inferno

Nunca sabemos se é Deus ou o demónio que por nossa boca fala, já que pode ser Deus ou Lúcifer a dar-nos razão, e para nos convencemos sempre que por nós é Deus que sentencia é somente para justificar actos que a uns mata, a outros esfola, e a poucos salva. O melhor será deixar as divindades de fora, recorrer ao entendimento, e perguntar se é que não somos nós mesmos a trazer ao mundo o Satanás que tem reinado.

perguntas e respostas

os homens, por vezes, fazem perguntas muito complicadas, com medo das repostas às questões mais simples.

líderes

Ao longo dos séculos temos inúmeros exemplos de multidões que seguem, aplaudem e choram os líderes responsáveis por inúmeras desgraças. E a vida continua. A democracia está em cada um de nós. A democracia está no poder de cada cidadão. E a vida continua.

criatividade

– Creio que estás a empurrar os limites da tua criatividade. Deve doer.
– Sim, dói. E, quando dói mais, escreves melhor; quando dói mais, sentes melhor; quando dói mais, vês melhor, e é, à espera do nascer de mais amor, e para que ele faça tudo melhor que te cobres de chuva.

posse de Trump

Com tudo o que aconteceu ontem, só posso ficar contente por haver um hoje.

anjo

o anjo meteu-me no regaço do manto, afagou com ele o meu pranto.
acalmei-me.

correntes

Quem marca fronteiras tem uma alma acorrentada.

sobreviver

O que me faz suportar a indiferença, a violência e o desespero na vida são o sonho, o silêncio, a música e a arte em geral. Um copo de vinho e um cigarro ajudam muito, mas não entendo como podem sobreviver os que não possuem estes tesouros.

dia internacional da paz

Ao ser humano cola-se, por vezes e ao longo dos tempos, uma irritação tão avassaladora que, ou é sinal de falta de carácter ou o é de loucura, na pior das hipóteses será uma conjugação de ambas, mas apresenta-se como sinal da completa agonia e desespero em que se encontra no espelho Esse estado plasma-se na cara dos homens numa máscara de mágoa, não é realmente tristeza, mas sim um enorme cansaço.

olhos de sentinela

Manter olhos de sentinela vale o que vale por obras de distracção ou de cansaço, mas não seria a primeira das democracias traída de modo a instituir uma ditadura.

18 de Setembro de 2016

olhos graduados

Deus deu-me uns olhos graduados para a tristeza, mas é com eles, e se calhar por isso mesmo, que procuro ser capaz de distinguir as estrelas entre as pedras do caminho.
17 de Setembro de 2016

tempo dos homens

“O tempo do homem é parado. Esta frase não sai do sonho. O tempo desta humanidade é tão destituído de mobilidade, não corrente, estagnado, em dinheiro não investido, no sentido figurado sem animação; sem vivacidade e inexpressivo. Mas com toda a certeza teremos dias mais produtivos.”

10 de Setembro 2016

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