“Para onde vai Portugal?”
Publicado no Diário do Minho, 5ª feira, dia 28 de Abril de 2011
O Congresso do Partido Socialista, pela televisão transportou-me para um novo jogo feito em Portugal, como um País da Nintendo 3D, uma realidade paralela e virtual. Vai ser o mais vendido na Europa, China, Timor e Brasil.
O jogo é super-interessante.
Logo no primeiro nível, ecrã número dois, o retrato compôs-se e culminou com a entrada triunfal do ex-primeiro-ministro José Sócrates, acompanhado de uma música solene que tão bem conhecemos. Por ter conseguido abocanhá-lo ganhei logo mil pontos neste primeiro nível. Mostrou-se ele, como o salvador da pátria, vítima de uma traição vil e maquiavélica da oposição. Ele, o único possuidor da razão e verdade absolutas, com um perfil erecto e sorridente. Para piorar o meu transe veio o seu discurso eloquente. Foi sem dúvida nessa parte que morri várias vezes e tive que recomeçar para me habituar a este jogo.
Jogo perigoso, este. Remeteu-me logo, a minha fértil imaginação, para as semelhanças com o III Reich da Alemanha Social Democrata “Nazi”. Este senhor foi retratado como personagem forte, capaz de nos salvar a todos e de nos colocar numa posição confortável dentro da Comunidade Europeia. Pior ainda, com a sua verborreia estudada ao ínfimo pormenor, veio calmamente, confiante, na certeza de convencer o povo português. Estava com melhor aspecto. Saíram-lhe as olheiras e o olhar cansado de quem há muito não dorme, por tão pesada ter a sua consciência. Aparece com sangue novo. Por trás dele, uma máquina de lavagem ao cérebro muito bem montada e acima de tudo o resto, como a cereja no topo do bolo: o “aspecto” de um cavalheiro. Nota máxima para a parte gráfica do jogo.
O segundo nível do jogo começa com a chegada triunfal da “Troika” gente muito trabalhadora a passar a pente fino as contas públicas do estado e a tentar descobrir o que nos vai fazer. Começou por negociar tecnicamente com os partidos. Por cada partido que se sentasse com eles à mesa da discussão eu ganhava uma vida. Como me encontro num jogo viciante e o que interessa é mudar de nível, aumentaram as minhas dificuldades. Como todos vós sabeis as dificuldades nestes jogos ultrapassam-se, mas só com muita destreza, com viragens à esquerda, à direita, saltos para cima e para baixo. Eram os juros a descer e a subir para me tirarem pontos e Bancos a chocarem com as tácticas que eu escolhia.
Até aqui ia eu perdendo quase o norte, mas o pior do jogo veio com a tolerância de ponto. Quem a apanhasse perdia logo três ou quatro vidas conforme a pontuação que já tinha. Para cúmulo, se eu quisesse ultrapassar este nível, tinha que acertar nas sondagens eleitorais para ganhar mais mil pontos e mais mil por acertar em quem ia fazer parte das listas do próximo governo. Para ganhar imunidade, no nível, tinha que acertar com todas as letras em quem iria chefiar as respectivas bancadas parlamentares. Dez mil pontos por cada chefia.
Falhei e recomecei com a Troika. Desta vez o cenário do jogo mudou, apareceu-me o sr. ex-primeiro-ministro com um ar mais preocupado, mais olheiras, e menos verborreia porque há muitas coisas que a Troika e eu, conforme o desenrolar do jogo, vamos descobrindo nas tais contas que estão a ser analisadas e que eu, mesmo não percebendo muito de economia, já entendi. Andámos muitos anos a gastar mais do que produzíamos, uns mais que outros, como sabemos, e os saltos que eu tinha que dar com o teclado, para ultrapassar os obstáculos eram cada vez mais difíceis. Os elementos da Troika começaram a ficar com os olhos em bico com o tamanho da “burrada” que encontram no edifício do Ministério das Finanças, cujas portas quase não abriam porque eu não conseguia encontrar a maioria dos funcionários que tinham que estar presentes para lhes dar informações. Com muitas contrariedades e uma boa dose de sorte cheguei ao fim do segundo nível do Jogo “Para onde vai Portugal?”
Desesperada comecei a perder interesse no jogo e apetecia-me encontrar o código que me fizesse avançar logo para o último nível do jogo que tinha por objectivo final salvar Portugal da bancarrota. Eu sei que isso seria fazer batota mas, assim-como-assim, já estamos habituados a isso e eu aprendo depressa. Foi o que fiz. Codifiquei, no teclado, a tecla três, seguido de três asteriscos e três pontos de exclamação e avancei para o último nível. O jogo bloqueou. Mandei-o trocar, por apresentar um defeito de fabrico e estou, até agora, à espera dele. Mas, um amigo que o jogou até ao fim, por ser a pessoa com mais paciência que eu já conheci, em toda a minha vida, disse-me que resumindo o jogo acaba assim:
José Sócrates é convidado a pedir a demissão do Partido Socialista por conduta imprópria para com os cidadãos. Ganhas vinte mil pontos por esta jogada.
Dá-se como provado todos os escândalos em que ele e tantos outros se envolveram e, quem os conseguir apanhar todos, fica com uma pontuação super-galáctica.
Os portugueses mostraram-se criativos, activos, pró-activos e optimistas conseguindo vencer a crise em que se encontram. Ganhas imunidade total ao entrares nesta porta.
Depois de ter perseguido aqueles que diziam e provavam que ele estava errado, de dizer e desdizer, fazer e desfazer vezes sem conta dentro da sua desgovernação, depois de ter mergulhado o país na maior dívida de sempre – eu lembro-me bem das anteriores. Sim.- diz-me o meu amigo, depois de tudo isto,  o jogo acaba a sorrir na cara de todos os portugueses e  a fazer projectos de habitações, tendo os portugueses que pedir a um engenheiro que os assine, para poderem ser aprovados pela autarquia, onde calmamente se refugiou.
CBL (nicha)
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