Quantos são os que lavaram as mãos
na grande merda que fizeram?
Luvas brancas, gravatas de risca fina,
fato azul marinho, missa ao domingo
sempre que a consciência pede
ou se o sono se perde,
Quantos são os que lavaram as mãos
na grande merda que fizeram?
Escavam memórias,
enterram vidas,
cantam vitórias,
cegam homens,
usam mulheres e crianças,
afundam botes de plástico,
nem os pássaros de Maio se salvam,
murcham as flores se os olham de frente,
e se uma brisa de tempestade nascesse
cresceria como o Vesúvio
e pediria ao sol da bonança que os assasse
eles e mais as suas misérias
para repasto num banquete nupcial
e sentados àquela mesa
apenas
os que fogem
os com fome
os sem mão
de um tecto,
de uma escola,
de um hospital ,
de um pensamento,
de um pincel numa tela,
dos acordes de uma viola,
de uma folha cheia de palavras,
porque ninguém nos diz
Quantos são afinal os que lavaram as mãos
na grande merda que fizeram?
All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove