pauta de musica ICP

Pois é. É assim que te tenho, que te quero impedir de partir. Acordo-me enroscada nas tuas pernas, de mão dada na tua, às vezes colada nas tuas costas, outras encorpada no teu peito, a maioria das vezes suada, molhada de te apertar. Acordo e lembro-me. Tantas as vezes recusara a aceitar o que poderia acontecer. E evito usar a palavra. Acontecer a noite de qualquer um de nós, amor; e ela te levar para longe e assim ser também a minha. Quantas foram as vezes em que a afastei do pensamento, a cortei com rapidez para não a chamar, para não a atrair. Acreditava que só o facto de pensar nela a pudesse fazer acontecer. Agora foste tão longe. Mudaste-te para outro espaço e continuo a não perceber como tenho de a tratar por tu. E para quem me vê parece que não sinto esta dor suprema de ti, de não-tu. Dizem-nos que Deus nos dá o peso da dor que aguentamos. Mas não acredito. A dor de uma perda como a nossa não tem embalagem em que a meta.
Acontecer a tua morte, amor, não é um facto. Não é. Agora, agora tenho que sonhar sem ti e esquecer aquele dia em que acordei e o dia ficou tão gelado como tu.

Cristina Brandão Lavender

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