Da língua se nos saltam as palavras, e elas, com todo o poder que têm, e muito maior é ele do que é suposto, encerram a mestria de desmascarar uma mentira, mas são também capazes, quando lampeiras, e com muito maior perigo, de transformar uma mentira numa verdade, à força de tantas vezes a melíflua verborreia nos atingir. Mas, para que nunca nos engasguemos em tão poderoso órgão, aqui vimos agradecer a quem, com um fantástico trabalho, em escolas e associações, leva às ruas e às salas de espectáculos o trabalho com os jovens. Afinal somos todos responsáveis pelo futuro, e nunca é demais provar a necessidade de ginasticar o pensar, interpretando, com as nossas próprias cabeças, as grandes obras de outros, a exemplo do que aconteceu ontem, com o espectáculo “A Tempestade” do majestoso dramaturgo Shakespeare, e de outros trabalhos artísticos e culturais que os jovens alunos levam, anualmente, à sala principal do majestoso Theatro Circo. Mas é mesmo de salas de espectáculos que venho aqui gritar porque, estranho e vil é o que pretendem fazer do S. Geraldo, local que albergou actividades culturais por tantos anos, e a quem, quase um século depois, pretendem apagar das nossas memórias, quando tamanha utilidade se lhe pode ainda destinar. Bem sabemos que o “condenado” fica no coração da cidade de Braga, que ali o preço por metro quadrado não se compadece com estas “manias de preservar o passado e a cultura”, mas é bem certo que quem não se orgulha do que tem, pouco poderá oferecer à sua gente. Também muito certo será morrerem com a consciência pesada, presumindo que a têm, aqueles que tão bárbaros actos cometem, ocupando os lugares públicos que o povo lhes concedeu, e que outros exemplos, como este, já seguiram. Quantos de nós não sentimos a nossa cidade tão vazia de cultura e de gente para que se possa dar ao luxo de fazer desaparecer o S. Geraldo. Por estes dias, e como se não bastassem os fantasmas que nos assaltam, em belíssimos edifícios em ruínas, numa cidade de onde deveria brotar muito mais actividade artística do que a que a que realmente acontece, está prestes a ser substituído por algo que não seja a função para que nasceu. Desci à tumba onde S. Geraldo, e outros, já não descansam, e incumbiu-me ele, ou alguém em seu nome, da mensagem que aqui vos entrego. Está S. Geraldo à espera de ver os cidadãos, à frente do edifício com o seu nome, inflexíveis, de alma forte e serena, a gritar à moda do norte, já que muitas vezes só a gritar nos ouvem

“cum carago, daqui é que eu não saio, daqui ninguém me tira.”

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