Sempre só existe no pequeno, minúsculo, quase imensurável, momento do agora. O sempre não é sempre. É quase sempre uma mentira. É, a maior parte das vezes, a maior mentira de sempre. “Quem disser que se pode amar alguém a vida inteira, (para sempre), é porque mente”. Ou nem sempre. 
Quem disser que sempre acorda amanhã, logo, ou depois, que beija ternamente e eternamente os que adora, ou está certo, ou mente – sempre.
Quem disser que é sempre dono do tempo, aquele que é, que corre ou que se arrasta e se mede de igual modo, para todos, que se usa, abusa, perde, desperdiça, amarra ou agarra: mente sempre. Ninguém é dono do tempo: sempre. Ele é não eterno, finito, infinitamente e infelizmente sempre limitado: sempre.
Sempre que acordo e caminho, num mergulho, para a rotina, os gatos sempre a roçarem-me nas pernas, os cães sempre a saltarem-me ao pescoço e eu sempre cambaleante de sono à procura de um café para começar o dia da família, a olhar-te com inveja, ainda a dormir, sempre a prolongar o momento de acordar: sempre. 
E, quando somos mães, somo-lo para sempre. Para toda a eternidade da vida que parimos, e doutros para além dela. Sempre mães. Mães dos nossos filhos, dos filhos dos outros, dos amigos, desconhecidos, de ti mãe, de ti pai, de ti tia, de ti amor, de todos os que existem e precisam de um carinho de mãe que não lhes durou: sempre. Sempre.
Ninguém tem o direito de me roubar, da mente, o sempre de todos os primeiros e contínuos pedaços que quero colocar aqui, para saber que existo. Ninguém me pára o tempo do agora para fazer dele o que quero, para fazer dele: um sempre. 
Mentira. Pura mentira. Aqui e agora, em qualquer palavra que eu escrevo, declaro solenemente que a escrita é minha, muito antes de ser de mais alguém, não é de ninguém. A escrita não é um filho meu, ela leva-me dentro, sou Eu. Ela é o meu sempre. Invento, sem problemas de consciência, o verbo semprar. Eu semprarei sem limites. E ele, esse meu desejo infinito, chamar-se-á para sempre “SEMPRE”. 
CRISTINA BRANDÃO LAVENDER 
República Democrática de S, Tomé e Príncipe, 31 de Julho de 2013
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