Nas li _____________________nhas com CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
in”Sentado no branco.”

Boa noite pessoal, hoje em branco. Muitas vezes assim. Acontece cada vez mais. Este estar em branco, um vácuo no olhar, um mar de nadas, uma catrefada de coisa nenhuma. É o vazio a existir. É assim. É isto.
Branco.
Um sentimento tão vago que pode ser do tamanho do que quisermos. Não. Não é uma contradição. Este sentimento de estar em branco não tem nada a ver com o sentir desconhecimento do assunto, nem com uma noite mal dormida. É mais uma certeza de que estando em branco não pertences ali; que tens uma página do tamanho do mundo a preencher; que poderás não ter tempo suficiente para o fazer; que nem sabes por onde começar e o melhor é mesmo uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.
Branco.
Com este vazio transparente só vi uma decisão a tomar e que vos pode parecer inusitada. Fazer uma última travessia física e psicológica no tempo que me resta. Muito ou pouco?
Branco.
Na mala vazia levo a satisfação imediata de dar sentido ao eu mais profundo, deixo para trás todas as camadas e camadas de momentos vividos, (horas, semanas, meses e anos), para começar tudo. De novo. Fica para trás o bater na mesma tecla, o tentar fazer o que estaria certo para agradar aos outros, o ram-ram do não consigo. Para pior já basta assim, para a frente é o conquistar de uma sucessão de espaços com mais significado, um existir mais verdadeiro, um encontro do ser e do estar. Não preciso de ter sempre razão. Nem preciso sequer de ter razão. Preciso dessa passagem para poder ligar-me. Conectar-me. Acreditar-me. Só de bilhete na mão, confortavelmente sentado no branco, vou criar um lugar muito melhor, primeiro em mim, nos outros depois.

Chegou a hora. Vou. Em branco parto. Chegarei cheia de cores? Espero.

A Velha-Escrita, em 5 de Fevereiro de 2014
Cristina Bardão Lavender

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