pintar ou escrever
Só por amor se vive assim (Nicha – pastel sobre tela)
Só de amor se vive assim. Só por amor, numa nesga do teu olhar, posso interpretar a tua ausência mesmo quando totalmente em presença.
Só por amor o minuto conta como um século que até pode ser um milénio, porque em nenhum deles se vive sem tamanha vontade.
Só por esse amor continuar é que não importa o olhar que agora me desferes que não é o olhar com que outrora me quiseste. Esse era todo para mim. Embevecido, carinhoso, orgulhoso, sempre dos dois. Um olhar que descansava quando pousava e se escondia. Agora o teu olhar voa num mundo só teu. Evitas-me e evitas-te. Fico-me e ficas-te.
Só por amor se vive assim.
Só por amor a nossa pele era tudo. Pele na pele, olhos nos olhos, boca na boca, sexo no sexo, tocávamo-nos e trocávamo-nos, propriedades bionómicas por hosmose.
Só por amor se corre o mundo e se vive a sonhar sem fronteiras, se vive a olhar sem limites, se aprende a sentir num todo explosivo, se faz o ser do universo noutro um: só nosso.
Só por amor não se olha o que o tempo fez. E não se sabe o tempo que resta. Para onde te levou o tempo? Para onde transportou o minuto que era tudo? Para onde carregou o relógio? Para onde amontoou o sentir do desejo? O prazer de te estar, de te ver, de te ser e de seres-te-me?
Só de amor se vive assim, mas onde foste que não és mais?
Onde foste que não és mais? Onde foste que não és mais?
Como desapareceste noite deixando-me sem te achar? Ficaste no vazio de um qualquer lugar. No vazio que não existia quando permanecias. Quando ficavas e não tinhas, ainda, sombras na alma.
Mas ficou menos de nada amor, e sem amor a vida é assim: um adormecer sem saber da noite, um não ter o suave sabor do luar nos lençóis de seda, agora vazios, um amanhecer que se perdeu da magia, uma vida cheia de lugares comuns, um vácuo despejado.
 Onde foste que não és mais?
Só de amor se vive assim.
Cristina Brandão Lavender
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