Quando recebeu o telegrama com as palavras: “mãe muito mal vem depressa” não vacilou sequer. Obedecer? Nunca. Por que razão havia de estar presente? Minutos finais da vida dela. Por ser seu filho,  só pelo facto de o ter parido? Um requiem agora, a que propósito?”

“Mais uma violenta discussão que acaba em violência doméstica.” Pousou o jornal irritado. Foi ao frigorífico e abriu a cerveja com os dentes. Bebeu-a de um só trago. Atirou a garrafa para o caixote do lixo. As palavras do telegrama atravessavam-lhe a garganta juntamente com o liquido a escorrer. Engasgavam-no e ecoavam em looping: “Mãe muito mal. Mãe muito mal. Mãe muito mal. Vem depressa. Vem depressa.”
Atravessou o corredor,  sentou-se no sofá novamente. “Não vou. Não vou e pronto. Mãe? Que é isso? Mãe de quem? Dela só recebi bofetadas, chicotadas e uma enorme quantidade de horas de trabalho no campo. Sempre. Com os animais, cegando as ervas, trocando a palha, tirando batatas, apanhando as couves. Nem à escola o deixara ir. Pancada e mais pancada. Ainda era pior se a queixa chegava ao pai. Já bêbado chamava-o com aquela voz de trovão: “Ah Gabriel, anda cá, meu malandro, meu filho-da-puta.” Escondia-se no cubículo à qual chamavam de quarto, à espera que ele o fosse buscar. Tão encolhido como as suas mãos cruzadas, vergadas e fechadas em punho, até as unhas lhe marcarem as palmas da mão. Sulcos do medo que o haveriam de perseguir.
Recostou a cabeça no sofá carcomido, manchado de nódoas de gordura, de bebidas, queimadelas de cigarro debuxando geometricamente a superfície lunar. Olhou o teto como se visse nele uma pintura de si, do que estava a sentir ali, do que a vida lhe dera, as manchas que desenhavam a indigestão, a congestão que apanhara da vida.
Fora para o internato e lá não sofrera mais do que com mãe. O alívio inicial deixou-o mais leve, mais alegre. Só o matava a solidão de não ter ninguém que o amasse, a quem chamasse de amigo. Fez companheiros de ocasião. Travou conhecimentos que durara pouco. Acumulou inimigos. Travou guerras reais, fantasias de piratas, polícias e bombeiros. Era herói de si mesmo e de mais ninguém.
“Não. Não era sua mãe. Pariu-o, mas  não era a sua mãe. Ser mãe não é um posto que conquista com o nascimento do filho. Ser mãe é tudo o que ela não havia sido.”
Gabriel nunca quisera mulher que lhe desse um filho. Nunca quisera ser pai. Nunca quisera que um filho tivesse a vida de que sempre fugira.
“Está decidido. Iria ter com ela. Iria dizer o que pensava a todos os que a fossem chorar junto à terra que a  iria tragar. Ao padre e ao pais diria que se encarregaria de fazer a laje para o cemitério.”
“Aqui não jaz a minha mãe. Aqui jaz a puta-que-me-pariu.
Só tinha uma solução: ir.
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