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A sua função como técnica superior, inspectora de higiene segurança do trabalho, fora mais uma vítima da crise. Não havia obras a inspeccionar: disseram-lhe. “Não conto consigo no futuro desta empresa.” Raquel ficou sem chão, mas não desistiu. “Espero então pela carta de despedimento.” Não lha deram.
Marido e filhos continuaram a ser a sua prioridade. Só aquela nuvem escura a pairar em cima da sua cabeça fazia com que de manhã saísse para o emprego como quem vai encontrar-se com o carrasco. Ordenados a atrasarem-se. Na empresa era feito o ytudo por tudo para que se despedisse. O ambiente era tenso com Raquel que ainda se encontrava a usar a licença de amamentação. Não lhe atribuíam obras para fiscalizar. Ela e outros funcionários tinham sido postos fora de circulação. Fora colocada numa prateleira de “out of stock”. As contas da casa eram inspeccionadas ao cêntimo. Imperativo foi começar a ter que cortar no aquecimento, na alimentação, no vestuário e no colégio do filho mais velho de onze anos. Os abraços de Ricardo e a ternura dos filhos eram a única vida para uma vida pronta a desmoronar-se. Ricardo teria que emigrar. Como arquiteto viu também o número de projectos a diminuir drasticamente. “Muito nos abraçámos nesse período.- contara-me. Sabíamos que mais-dia-menos-dia iríamos estar um sem o outro. Inspirei o cheiro, memorizei os traços da pele, tudo a guardar num chip de memória para usar à distância.”
Raquel continuou sob a ameaça de um despedimento que não acontecia. Contava com ajuda dos pais e dos sogros para pagar o T2 e o carro. Falou com um advogado e alegou perseguição moral e descriminação à sua situação de maternidade. A empresa entrou em falência técnica e fez um despedimento colectivo após ter entrado legalmente com um PER (Processo Especial de Revitalização) criado pelo governo para a recuperação dos devedores em situação económica difícil, através de acordo com os credores. Situação apenas de fachada. Raquel não aceitou. O grupo empresarial todo gerido por membros da mesma família apostou na internacionalização. Por um lado não havia dinheiro para pagar aos credores, fornecedores e funcionários, por outro desviavam verbas para obras de remodelação nas casas dos administradores e na frota automóvel da empresa. As intervenções nas residências pessoais eram superiores a vinte e cinco mil euros que não eram facturados ou pagos. Raquel conseguiu reter apenas uma prova: uma banheira devolvida, de sete mil euros, que iam visitar (à vez), ao armazém, para descobrir o que realmente faria para custar tamanho preço.
O advogado falou com o administrador da empresa que lhe declarou “Eu pago a quem eu quero, no fim processe-me.”
O advogado explicou a Raquel a longa batalha que teriam pela frente. Pesou prós e contras. Estava com medo porque este é contagioso. Recebeu uma carta da administração a propor rescisão por mútuo acordo. Rasgou o papel e tomou a decisão:
“Desistir da justiça seria desistir da vida. Temos luta.”

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