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Corria o mês de Fevereiro. Mais um ser muito desejado se aninhava no emaranhado celular protector, laço bem atado ao coração de mãe. O resultado lido na caneta de teste era definitivo, peremptório, fechado. 

-Mãe, porque estás tão linda?

Estamos lindos quando estamos felizes. Quando recebemos o presente das mossas preces; quando o amor inunda o corpo por dentro e só depois por fora. Como tu estás agora, querido. Tudo em ti é feliz. E quando o anjo toca essas tuas mãos lindas que me tocam as faces; quando te recebemos no nosso abrigo; quando repartimos com quem amamos uma unidade só, como o pai e eu repartimos contigo tudo o que é nosso; quando temos uma sintonia sem perdermos a nossa individualidade, o nosso modo único. Neste momento somos três aqui, mas seremos uma unidade com mais alguns: prometo-te. Agora vamos que estamos com os segundos contados para dizer: “Bom dia, Mundo.” Os dois ao mesmo tempo neste ritmo de contar segundos à marinheiro, como quando olhámos o farol à noite, lembras-te? one thousand, two thousands, three thousands…”

-Gosto deste tempo que estamos unidos, também no carro, gosto deste pequeno mundo nosso, gosto do mundo lá fora: também. Gosto que me ajudes a domá-lo, a conhecê-lo, a vivê-lo. Gosto quando me dizes que tudo passa quando estou triste; que o que hoje é tudo amanhã é nada, mas que nós continuaremos a ser o nosso tudo; que isso nunca muda porque no universo nada se perde, tudo se transforma, que me deixas dizer que a quântica é a única ciência que vou estudar; que estarás sempre para mim primeiro, mas que não deixas os outros abandonados. Amo-te mãe.

-Amo-te filho: muito. Que nunca me esqueça, um décimo de segundo, de to dizer e de to provar.

Mesa posta com velas para três. Uma nota em papel de papiro no centro da mesa: seremos quatro daqui a 6 meses e um desenho lindo do Rodrigo.

Uma sensação húmida, sem dor. Hospital, luzes brancas de um corredor vestidas de anti-sépticos dos pés à cabeça. Ele ia-se. Partiu. A dor não. Ficou colada na saudade dos braços vazios. Mas ele voltará. Tudo o que se ama volta. Nada se perde. Tudo se transforma.

Corria o mês de Fevereiro e sempre em Fevereiro dói muito mais.

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