Nunca mais me quero afogar na vozearia. Nem na minha nem na dos outros. Os anos passam e a minha verborreia tem vindo a diminuir em substancia. Especialmente quando agarro o corpo e a consciência dela. Peço fervorosamente, imploro a quem amo, porque quem confia ama, que me dêem um pontapé certeiro por debaixo da mesa, um apertão na mão, um beliscão no braço, uma palavra senha, conforme o tamanho da minha excitação verbal, quando me estou a perder e a exceder num palavrório sem sentido, maçador, mesmo indigesto. É verdade. Cada vez dou mais valor a um silêncio de ânimo e de anima, responsável pelo equilíbrio físico e mental. Um silêncio que não é constrangedor, adicionado a gestos desenhados pelo incómodo, indecisão, logro, desconforto e mentira. Os gestos são palavras incríveis de sinceridade. Gestos de mãos que se apertam ou se tocam sobrepostas quando precisam de ganhar tempo; da mão em maus lençóis, sem sinceridade, quando vai atrás coçar o pescoço, a ponta da orelha ou a testa; a mão do pensar a afagar o nariz de cima para baixo; o pousar na testa fazendo um tripé com três dedos – três pontos, um equilíbrio perfeito no plano – como quem se concentra para trazer uma ideia de jeito, para o papel, para o ecrã. Sem vozearia comecei a ler nos olhos das gentes. O que dizem e principalmente o que não dizem. E trago-os. Sem dó, mas com piedade, bondade e comoção conseguidas, para o meu teclado, para te levar. Sem palavrório leio num olhar fugidio quem esconde algo verdadeiro ou falso que não quer revelar o que posso querer vir a saber. Sem verbosidade excessiva preencho os espaços de silêncio com um mundo que é nosso e que me disponho a interpretar e a passar: para ti. Se o leres consegui. Se não o leres: falhei. Sem parouvela interpreto melhor os sinais do Homem porque a atenção é maior, o tempo também, e a musicalidade de palavras verdadeiras não são lábia, nem léria, nem paleio.
Agora persigo sem cansaço o motivo por que vivo. Uso de palavras, delas a arte. Texto vozeiro? Nunca.


CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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