Foi de treze milhões de libras o custo para a entrada no inferno na Torre de Grenfell. Este Dante povoou os nossos piores pesadelos durante dois dias e, por muito que o tentemos, torna-se impossível imaginar o desespero dos que ficaram aprisionados dentro daquele braseiro, ao ponto de atirarem aos céus os seus filhos e a si mesmos para não sentirem o horror de uma morte por queimaduras e ou asfixia. Os que se salvaram devem a sua vida aos Homens (sim com H maiúsculo) que, numa atitude solidária, não se preocuparam apenas em salvar a sua pele, e os avisaram acordando-os do seu sono inocente, sem esquecer os bombeiros que, também em completa agonia, os tentavam resgatar, quando viam que os sistemas de segurança do edifício se revelaram completamente inexistentes e ineficazes. Desconhecemos quantos ficaram aprisionados no horror das chamas, mas sabemos que um acto criminoso da pior espécie estará por detrás da tragédia daquela habitação social, já que no verão passado foram gastos treze milhões de libras, repito, treze milhões de libras, na renovação do edifício e, ao que se pressupõe, para melhorar as condições de habitabilidade do enorme edifício e dos seus habitantes, que se mostrou  um horrível monstro a devorar vidas humanas e, quem sabe, a vida de animais domésticos. Facturar materiais de qualidade e fornecer os de pior espécie é, com toda a certeza, um acto hediondo que esperamos ver punido com toda a severidade. Mesmo depois desta catarse de escrita não consigo segurar a revolta que me consome e, só não escrevo por vergonha e contenção, o que os piores instintos me aconselham para esses indivíduos. São treze milhões de libras de castigo para vítimas inocentes cujo único crime é serem de baixa condição social.

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