viola bio

Foto de Isabel Costa Pinto

Grandes derrotas, grandes perdas, grandes sofrimentos construíram, durante muito tempo, uma manta espessa de um enredo de prisão e cegueira. Mas não queria que fosse essa a história. Essa só pode ser a grande mentira, uma verdade que não quero escolher, uma teia que quero romper.

Neste sonho ia em queda livre, em suspenso, quando descobri que “se não dá prazer então está mal feito”. Foi com esta frase à frente dos olhos que percebi que a história da minha vida estava mal contada e que era tempo de fugir. Saí então do personagem e puf: acordei. Quanto te vi contei-te que sonhei que tudo o que perdi foi o que ganhei.

Quadros soltos do que fez aquele ser preocupado que os outros aceitem, em fazer muito, e se muito não chegasse que fosse muito e bem. Um homem a escrever história pelos padrões impostos, pelo que se forçou a consentir. Escrever  história para que os outros aprovassem, construir história com o amontoar de fazeres, um pleno de falta de paixão onde era urgente encontrar a seta de saída. Começou por gritar que  o impossível era buscar fora o que já se tinha. Que era de dentro de onde vinha a excitação, o entusiasmo, esse formigueiro, essa impulsão pelo criar, essa inquietante procura de libertar, de ser. Se todos os sonhos fossem energia, aquele seria o da energia dos afectos que permanecem, que acontecem eclodir poucas vezes, com um homem inspirado, com um sorriso que se solta, livre, com uma luz que irradia e encandeia. Foi um compromisso entre o que se solta e o que se ganha em encantamento.

Tudo que perdi foi o que ganhei.

Cristina Brandão Lavender

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