última carta de um refugiado

“podemos morrer hoje, mas não de bombas

podemos morrer de frio e não de terror
podemos morrer a tiritar e a tossir, podemos morrer de febre numa liteira, saco cama ou na madeira, mas não de ódio ou cegueira

podemos morrer hoje, mas não de bombas

podemos morrer hoje abraçados ao frio da noite, ou ao gelo da neve, olhando as estrelas do norte, mas já não ao som das balas ou dos tanques

podemos morrer hoje, mas não de bombas

podemos morrer hoje e esquecer que aquilo que nos varreu até aqui foi a guerra
podemos morrer hoje nos trilhos das montanhas, a andar ou a chorar, a ouvir o gemido de velhos, homens, mulheres e crianças, mas não do ódio do meu irmão

podemos morrer hoje, mas não de bombas

podemos morrer hoje, mas a olhar o mar e o amor, e se isso me fizer esquecer a luta e o sangue, então que morra hoje a fugir para encontrar um pedacinho seguro, a nadar, a andar, a correr ou a morrer

podemos morrer hoje, mas não de bombas, e este último esforço de vida vai para ti, porque se te encontrar, mesmo num lugar pequenino dentro do coração, não morrerei hoje, em vão

poderemos morrer hoje, mas não de bombas”

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