esqueço o quanto jurei casar a morte com a vida
aquela que teimava ser a minha sorte
esqueço dar um passo em falso, de perder o norte
deixo a doença, o percalço deste ser rumado ao cadafalso.

deixo o medo da descoberta da angústia do viver
esqueço e deixo em testamento assinado por minha mão
o total desprezo por esta vida de cão
deixo e esqueço a inacção, a minha eterna crença na desilusão.

esqueço, deixo e vou enfim fazer qualquer coisa por mim
deixo portanto eternamente o lado negativo de pessoas, coisas e animais,
esqueço e deixo a má história
deixo e esqueço a espera contínua de sabor a chicória
aquele mais que se arrastava e nunca saía do cais.

esqueço o pensamento fixado no último suspiro
deixo e esqueço este cansaço e mato o desespero de trocar o mal pelo mal
nesta existência sem um pingo de sal que ia de mal a pior
na persistência, insistência e na demência do sintoma fatal
deixo e esqueço o prejuízo, a calamidade e a desgraça maior
a ofensa, aflição, o desleixo, a inacção, a falsa falta de juízo.

deixo o medo de receber sempre um não
esqueço e troco-o por um sim, esqueço e deixo tudo, então
como quando me sentia coxo, enjeitado, inconveniente
esqueço e deixo este flagelo, enfermidade pessimista que não é mais minha.

deixo a estupidez de ser o que querem que eu seja, deixo porque a esqueço de vez
agradeço porque esqueço o quanto jurei casar a morte na vida.

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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