“Um carro velho é só um carro? – pensei
“Hei, tu”. – ouvi eu. Olhei para trás. “Donde vinha aquela voz arrastada quase a ir-se abaixo?
A alguns metros um velhinho Xantia azul.”

 “Sim, tu.” – aumentou ele as rotações.  “Hoje tu vais tomar o meu lugar. Hoje. Vou para abate. Vais tu rolar e rodar o meu mestre. Nosso mestre. Fazer numa nova viagem. Romper o asfalto. Muito menos ruído, muito menos fumo, muito mais conforto. Uma beleza!”
Aproximei-me acanhado e desconfortável mediante o seu aspecto. “Ainda agora aqui cheguei e já me falas do que nada sei.”
“Atenta. Vem. Trava. Deixa-me tocar-te. Passo-te, nesta transfusão de fluídos oleosos e eléctricos, toda a experiência acumulada. O mestre tomou a decisão acertada. Preciso de to dizer enquanto ainda tenho esta réstia de vigor. Não te guardo qualquer raiva. Essa, aprendi eu, corrói tanto ou mais que a ferrugem e o tempo juntos. Vê-los no meu chassi?, são evidentes. Pelo contrário, quero preparar-te. Estás pronto?, estás em condições de me substituir?, sabes o que é pensamento, sentimento, emoção?“
“Apenas o que penso agora. Tudo o que dizes é estranho. Por isso quero conhecer-te melhor. Abalas-me. Estranha-me essa tua perturbação.“
“Melancolia.”
“Isso. Que seja. Assalta-me desde a primeira vez que ouvi essa voz roufenha e arrastada. Inconfundível,”
“Deixa-me desabafar contigo. Não sou profeta da desgraça nem dos que desdenham de horizontes novos. Tenho pouco tempo. Hoje cortei a meta final. O meu mestre não to quer mostrar, mas está desfeito. Consumido pelas memórias que o acompanham. O tempo dele continua. Uma vida aqui sentado. Muito do que comigo partilhou dentro e fora desta velha carlinga, vai ser teu. És o progresso: novinho, brilhante e tecnológico – o futuro que o consola.
Ainda tenho o toque da sua pele macia e as impressões digitais da alma gravadas neste velho e coçado volante. Aqui, nestes assentos rasgados e velhos, estão milhares de quilómetros de cumplicidade em monólogos, diálogos, sonhos, doenças, sustos, desafios. Conheço os pés, as mãos e a voz dos seus filhos desde bebés até aos netos de agora, os amigos, conhecidos e desconhecidos. Aqui ouvi o som do seu riso, o cantarolar ao som do rádio e cassetes, ouvi os pensamentos e segredos somente partilhados comigo; senti o sabor das suas lágrimas e o som das suas gargalhadas. A carga nunca foi pesada. Nem à semana, nem aos domingos, nem em férias, nem em feiras. Essa melancolia é para deixar na sucata. Deve dar lugar a outras emoções no teu motor. Trata com humanidade as incertezas que aí vêm. São três em ti. Adivinha quais?”
“Suavidade, rotatividade e durabilidade.”
“Sim. E nele, como em mim, correspondem a bondade, coragem e persistência. Passo-te tudo. É o meu legado. Eu vou, mas deixo-te  história e estórias, juntamente com a minha alma inanimada. Deixo-te a ele e o futuro. Comigo fica tudo. Tudo, ouviste. Todinho. A estrada agora é tua. Boa viagem.”
O pára choques da frente retorceu-se num leve sorriso. Tranquilo. Duas gotas de óleo preto usado, viscoso, doloroso escorreram pelo escape. Ali o último ronco.
Fui. Mais pesado. Mais vivido. Pronto.
Um carro velho não é só um carro.

Cristina Brandão Lavender
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