Que dia infernal.
Sou conhecido como o anticristo, anti isto, anti aquilo, anti-tudo. Mas afinal o eu, quem sou?
Eu?
Estou confortavelmente sentado na sala de estar da D. Margarida que foge de mim como quem foge do diabo ou como eu, diabo, fujo da cruz. Da cruz do Cristo, claro está, que nunca me quis dar ouvidos e que por si só me deixou ao abandono, a falar sozinho no monte escarpado onde o tentei as vezes que me apeteceu e nas quais ele nunca caiu.
Eu?
Reencarnei sucessivamente nestes últimos dois mil anos, neste dilema de vir ao mundo atazanar a vida às pessoas como a D. Margarida, uma normal dona de casa, que leva uma vida infernal, segundo as suas próprias palavras e que, com estas e outras verborreias, me atraiu à sua presença. 
Encarecidamente, pedi-lhe desculpas pela minha nefasta influência na formação da sua individualidade.
Bati-lhe à porta três vezes e os três cães ladraram desalmadamente. Nada de anormal até aqui. Ladraram aos meus ouvidos, chegaram a ensurdecer toda a vizinhança que, por terem também cães e por pressentirem a minha presença satânica, ficaram deveras perturbados, com o pelo eriçado, salivando como lobos apesar de não o serem e estarem completamente domesticados.
Eu? 
Insisto que não há novidades neste tipo de comportamento por ser comum a toda a raça humana que se serve de mim para explicar o que não lembra ao demónio, mas que todos eles praticam com uma fé inabalável.
A senhora Margarida disse para os seus botões que aquilo não lhe podia estar a acontecer, mas suspeito que essa frase era uma das suas preferidas. Asseverou isto vezes sem conta porque lhe li os pensamentos e estar aqui, em sua casa, com o seu marido e todos os seus filhos, constituía a sua cruz, o seu martírio.
Eu?
Tudo era ainda mais constrangedor para o meu pedido de desculpas.
À Margarida esta cruz foi a última coisa que lhe passou pela cabeça quando ainda jovem se apaixonou e pediu a Deus que abençoasse a união. Naquela altura morreria de amor, por amor ao seu amor e o tempo não tinha a mínima pressa. Só mesmo Margarida é que tinha uma pressa imensa de arranjar uma cama e uma cabana. É esta onde me encontro agora sentado, com paninhos de crochet imaculadamente brancos, nos braços do sofá, a atestarem a substituição do sexo enquanto os executava quase de olhos fechados, prova da completa traição de deus aos seus planos angelicais.
Eu?
Dona Margarida sentou-se no sofá em frente e perguntou-me “a que devo eu o prazer desta visita” e “se lhe posso oferecer uma xícara de chá ou café”.
Pedi-lhe perdão pela sua morte viva, pelo seu suicídio lento, sistemático e sádico que a queria compensar com um pedido de desculpas formais por parte do mafarrico que eu sou.
Eu?
Margarida levantou-se, pegou na carteira, abriu a porta da rua e com um sorriso de felicidade comunicou-me:
Esta vida é toda sua. Eu morri dela. Obrigada.
Eu?
Cristina Brandão Lavender
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