A rua do Souto estava, naquele dia, mais gélida que nunca. Era a terceira vaga de frio que varria a Europa. O telemóvel com a net de Braga dizia-lhe que Trump dava a primeira conferência de imprensa depois de eleito presidente e, ao ligar ao site ouviu-o proferir, no tom insultuoso do costume, que os meios de comunicação social, incluindo a CNN, se tinham atrevido a publicar que a Rússia o tinha na mão e o chantageava com escândalos financeiros e de cariz sexual. Eram uns mentirosos e não lhes seria permitido colocar ali nenhuma questão. Antes de acabar com a garrafa de vinho carrascão, foi ao café da esquina da rua de São Marcos e pediu:
uma sopa bem quentinha e a conta, por favor.
Sorveu-a devagar e, quando acabou, sentiu-se mais confortado. Sabia que não o deixariam estar ali muito mais tempo e voltou para o seu poiso. Pelo caminho, os pés eram já blocos de gelo e as mãos, com as meias de lã esburacadas a servir de luvas, já não conseguiam aquecer com o bafo da boca. Acabou com o vinho. Deitou-se com o cartão por baixo, outros quantos por cima, o baltazar enroscou-se junto ao corpo e meteu-se o mais possível, no vão de porta. Adormeceu e, quando acordou, estava a comer uns Rojões à Moda do Minho.

Cristina Brandão Lavender na Casa do Professor

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