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Quando a olhei fechei os olhos. Retirei delicadamente da vitrina a antiga câmara fotográfica do avô. Segurei-a com cerimónia. Uma preciosidade ZEISS IKON oferecida por Henri Cartier-Bresson, Janeiro de 1938, Bruxelas. Li a frase escrita a tinta permanente e assinada por ele: “De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-las voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória.”
Tirei-a da exposição de cima do estojo de cabedal, num ritual quase sagrado. Toda ela era manual. Tocá-la era um acto solene. Assim que a minha mão a agarrou visualizei o avô a esticar o pescoço por cima da mira, a escolher melhor o que queria do momento. Decidido, baixou a cabeça em direcção ao “view finder”. Olho direito aberto, esquerdo fechado e bebia tudo o que por ela entrava, escolhia o que nela queria enquadrado.
Meu avô, de Zeiss Ikon em punho saiu mais uma vez à procura de Benize que estaria por aquela hora a lavar-se no rio. Corpo com formas de mulher magra, músculos bem definidos, pele brilhante, molhada, peito intumescido pela água fria da cachoeira. Era o momento que queria na memória: clik. Rodou o rolo com a chave: clik. Apanhou-a bem de frente, a sair da água, ligeiramente inclinada para trás a escorrer pelo cabelo e pela cara: clik. Agora, chegar mais perto. Tornou a levantar o pescoço acima da Zeiss Ikon para definir a conquista seguinte. Aproximou-se. Passo rápido. Fez-se notado: sentiu-se bem-vindo. Sorriu. Com o braço direito puxou-a para si, levantando o braço esquerdo que afastava a camara da água. Beijou-lhe os lábios carnudos e com a língua lambeu-lhe as gotas que desciam da face e do peito. Pele e desejo. Molhou o fato, mas não a câmara. Agarrando-a, reclinou-se pra trás a menos de trinta centímetros: Olhou-a. Esticou mais uma vez o pescoço para antever o que queria apanhar com a objectiva: os seus olhos. Fechou o olho, apanhou-lhe a expressão altiva: clik. Aproximou-se um pouco mais. Chegou a eles, a janela escancarada: a da alma. Clik. Sorriu por cima da caixa. Benize sentiu-se desejada. Amou. Tantas vezes lhe negara o corpo, o sexo, o êxtase. Hoje perpetuaria a sua existência. Tantas derrotas, uma vitória perpétua retida numa Zeiss Ikon: clik. Mais um Pulitzer a anunciar em Abril daquele ano.

Cristina Brandão Lavender

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