Alguém disse que a chuva incessante entorpecia as consciências, mas para isso seria preciso, primeiro, que a tivesse e, da chuva, lembro-me de que alagava os campos da minha aldeia, chegando muitas vezes até aos telhados, e era ver-nos então a rezar a todos os santinhos, quando não directamente à Virgem Maria, para que nos salvasse de tal situação, enquanto víamos a água misturada com lama e outras miudezas da mesma cor, a entrar-nos, primeiro pelas ruas, depois pelas casas e pelos cafés, lojas e restaurantes. Como tudo se limpava e tudo limpinho aparecia, ainda hoje me admiro, e é a prova provada dos milagres de que o homem é mestre, assim como mestre de cerimónia é, também da vida, que o que fica para trás não paga as dívidas aos que trabalham. Foram duas, ou talvez três, as vezes que senti a consciência entorpecida, ao ponto de deixar de pensar que havia amanhã, isto porque sou de pensar muito e desespero-me por haver corações assim, em homens assim.
Chegamos todos ao mundo nus e levamos uma vida inteira a vestir os conceitos e preconceitos que nos tentam impingir e do que sei hoje, já velho, cansado e calejado da vida, não servem de nada, ou melhor servem para afrouxar, não só a consciência, mas os sentidos do amor, aquele com que qualquer homem sonha e para o qual Deus lhe deu um membro especial a usar e que ele, desesperadamente também, não consegue esquecer. Há muitos homens assim, em que os assuntos do coração não existem e que tudo se resume ao membro menor que possui. Outros há que da consciência e do cérebro pouco sabem, e se nascem nus, nus vão também em vida, usando roupa selecta no caixão, enquanto outros morrem nus também, porque um féretro vistoso só se soprar fortuna, que também é preciso alguma sorte, no morrer.

Não é de hoje que os homens têm pedras no lugar de corações, fazendo multiplicar a merda do dinheiro, em dinheiro de merda. Veja-se em como se aproveitam da desgraça dos outros homens que eles consideram como bichos, mesmo que nem os bichos se achem assim, pois os que andam lá por casa se mostram sempre leais connosco e entre eles. Mas contava eu que esses homens se distinguem bem, pois têm um brilho nos olhos com a forma de “€” dos euros, a juntar a uma calma traiçoeira, a um sorriso não muito rasgado e contido que lhes vem da seriedade e da segurança que lhes sobra dos roubos garantidos, assim são eles como umas falas treinadas, de frases bem construídas num discurso enganador e circular, e, quem neles cai, anda ali toda uma vida, como que apanhado num redemoinho nas águas do Rio Cávado, e com apenas um final garantido, um lugar no lodoso fundo do leito, à espera dos mergulhadores sapadores, bombeiros especializados nestas buscas, que muitos já lá foram buscar, ou caídos por si, ou empurrados, ou ainda por segredo de não suportarem mais as desventuras que lhes preparam os governos da consciência.

Como tu, momentos há em que sou menor que a sombra que conheço de mim e, o coração, quem o tem, não abarca tamanha verdade sem a ver, sem a apalpar, sem um olho a espreitar a liberdade através de um losango de rede inultrapassável. Não sei a humanidade, porque não a reconheço mais, vejo-a, mas não a entendo, leio-a e não a compreendo, choro-a e não sinto o mesmo que ela. Veja-se os milhões de refugiados a quem expropriam os bens nos seus países, com a desculpa de que precisam de pagar pelo seu realojamento isto, claro, se os tiverem e se conseguirem chegar, depois de um caminho farto de violações a mulheres e crianças, roubos, chicotadas para que não parem ou descansem, ou ainda para que não atrasem o contrabando, com doenças, quando se vêem forçados a verem-se livres dos velhos e dos doentes, mais lentos, mas não antes de lhes terem recebido tudo mais a dignidade, e, quando digo verem-se livres, quero mesmo dizer que os matam, e abandonam no fundo de uma ravina, para onde foram empurrados, ainda em vida. Outros são impedidos de chegar a terra firme, num tiro ao alvo aos frágeis barcos que a natureza deixou passar, não sem que antes os passageiros já tenham perdido a esperança de ver o solo, e tenham entregue a alma a Deus, porque entre o que deixam e o que vão encontrar, o diabo se revela um santo. Pois digo-te que os homens que assim agem, são da mesma espécie dos que conheces, e são de todas as diferentes raças e de todas as cores, que isto de fazer dinheiro ataca a todos.

Mas outros há, mais finos, que não conhecem a cor do dinheiro, mas que sabem bem contar as casas que tem um número, e que de fatinho sem rugas, cortam nos medicamentos, no material hospitalar, reduzem nos funcionários e nos salários, fecham hospitais, maternidades, escolas e linhas de comboio enquanto, sem deixar rasto, se dedicam a negócios de milhões de euros, atirando os bancos, para a casa da insolvência, com as economias do Zé que fica sem cheta, e sem o reconhecimento da humidade que sai do suor que gastou a ganhá-lo, para o poupar. Claro que alguns Zés puderam amealhar, com muito sacrifício, mas isso é coisa que agora quase ninguém consegue e, muito francamente, se um banco for à falência, pouco me importa, porque devo-lhes mais eu, Português, do que os bancos me devem a mim.

Mas já chega de filosofia e de amor, porque, do segundo, sei demais, e, da primeira, chega-me a da vida, que me deixa um gosto amargo na boca e a língua seca, por tantas misérias se apressarem neste deserto, onde a única flor que renasce é a de dar à luz alguém que serenamente chame de amigo, e se sente num sofá ou no chão, converse, consiga sorrir, rir, chorar, odiar e amar, e dirija a vida que nasce contra tudo e contra todos.

Faltam cinco para as sete e o despertador toca. Relembrei o sonho em que o homem nasceu, já velho e nu, de membro teso, com o cordão umbilical a dar duas voltas ao pescoço. A mãe tinha-o parido, nas areias quentes do Sahara, onde uma grande flor amarela parecida com um girassol a rir, abria ao seu lado, ao mesmo tempo em que ele, aos setenta anos, se levantava a dançar como a Tina Turner no Proud Mary, para ir lavar a louça que deixou na banca.

Porra! tenho que mudar a música do telemóvel.

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