O centro da praceta do Largo de S. Martinho tornara-se o mundo. Sentira-se uno com ela, concentrando-se de dentro para fora, transmitindo um olhar orgulhoso, ora bem fundo em sim, ora em volta, olhos nos olhos, um a um, percorrendo o público que se ia aglomerando, em círculo, inspirando-o. Outras vezes, com a necessidade de sorver algo mais forte, olhava ao alto, onde parecia beber a força do poder de fazer o que tem a fazer, da razão do estar ali e do ser assim. O almoço equilibrava-se no pau retorcido e côncavo e o artista, todo entregue ao momento, segurava-o com firmeza, a dois terços do seu comprimento, palma para cima, músculos bem torneados, equilibrando, num lado, a cesta de vime vazia (imaterialidade da vida que abraçava) e, no outro, uma bola branca (o mundo que queria diferente). Bem ao limite, cabia-lhe evitar que se despenhasse, em cacos, por cima do espelho da mesquinhez, da avidez de quem dele se aproveita.
O público já era muito, o poder da bola branca aumentava, o poder de alcançar o equilíbrio mais a adrenalina do momento estava ao rubro. Tinha nas mãos a magia do cajado de madeira, poder de há milénios desde que, segundo reza a história, se abriu, em dois, o mar Vermelho para o êxodo de um povo, com a esperança que acontecesse hoje o mesmo, para a fuga do povo Sírio. Urge evitar a queda do planeta em cada um de nós, mas, entretanto, o centro da praceta transformava-se num grande mundo.
6 de Abril de 2014

foto publicada com autorização de José Delgado

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