Estou preparada para a mudança de tempo. Vai-se uma, chega outra. Caem três ou quatro folhas amarelas e há um grande estardalhaço mesmo no centro da árvore. Os pardais pegaram-se à porrada e o som que saía das suas cordas vocais eram insultos em fiada, cada um a gritar mais alto, sai-me da frente senão parto-te todo, nem penses, nem tentes que não cedo. E ouvia-se as asas a baterem forte de encontro às folhas, de encontro aos ramos, de encontro ao corpo, de encontro à cara uns dos outros, às bicadas e aos Faleiros saltitos. Estou preparada para a mudança do tempo, vai-se uma, chega outra, mas não estava preparada para luta engalfinhada dos pardais por um pedaço de comida, um pedaço de ninho, um pedaço de espaço e de tempo. Acreditava que os pássaros só cantavam árias de hinos de paz, harmonia e alegria. Estava enganada. Quatro gatos encaminharam-se para baixo da árvore e apanharam com mais algumas folhas no lombo. Sorriam, juro que sorriam, com irónica esperança, ainda vai sobrar para mim, ainda vai sobrar para mim, dois gatos amarelos ficaram debaixo e outros dois foram à volta para cima do muro para aplaudir o combate. Há sempre alguém que beneficia com o estardalhaço da guerra dos outros, ficam a assistir, apertam o cerco e esperam pelas migalhas, como abutres, sem fazer nada, só a olhar e a falar uns com os outros, a dar opiniões, declarações, intenções. Vai-se uma estação, chega outra e o pardalis não vai chegar ao outono. Sabemos todos quando nascemos, mas não sabemos nunca quando morremos. Estou preparada para a mudança de tempo, vai-se uma, apresenta-se outra.

All original content on these pages is fingerprinted and certified by Digiprove