“Quem me vai gritar as verdades reflectidas nos espelhos” dizia o espelho que decidi roubar dela – a minha amiga Fabíola. São delas estas palavras. Nas “Vozes em Mim”, entre muitos outros versos que se fundiram nos eus que vivo, estas caíram aos meus pés. Foram para elas os meus olhos com água. E, com estas escritas do espelho, vieram mais umas farpas pontiagudas das que me acertaram hoje, na ausência do abraço forte do alguém que me adormece, que me toca, que me deseja.
“Quem me vai gritar as verdades reflectidas nos espelhos” serei eu. Eu sou e serei sempre a mais cruel das censuras. Sou eu que me abro portas que cerro sem jeito, em estrondo, sem deixar dar ouvidos às vozes e aos silêncios que elas encelam. Sou eu, nessas alturas, viajante sem corpo, noutras sem alma e sempre no desejo a realizar-se na procura das verdades que desconheço e que não deixo que me escapem. Mas escapam. E vivo em câmara lenta, muito lenta, numa conquista das portas que se fecham por janelas que se abrem. Porque sim. Porque olho as verdades nos espelhos, na ignorância, na simplicidade, no limiar do ser humano. Sem os gritos dessas verdades simples, essenciais e claras, a linguagem perder-se-ia nas areias da vida. A força centrífuga das verdades que quero ouvir, nesta noite, noutra e sempre, atirar-me-ia para o interior do cone – olho de um ciclone potencia cinco – devastador.
Por vezes fico surda ao som de algumas verdades e ao perdê-las desvivo no gosto de ti, no quero-me em ti, no sou eu porque te vi. Perco-me no abraço do fogo, fundo-me nos cristais de gelo que nascem no útero de mim, nos gritos que dou em desafio ao comboio que se aproxima da estação para que ninguém me ouça aquele medo da mentira de viver.
Mas sim, as verdades que leio nos espelhos reflectidas são o fiel da balança que rasgam as ilusões humanas. Essas verdades espelhadas, mesmo que à média luz, num barco vazio, são o norte a romper as ondas revoltas numa tempestade interna, com o meu anjo como testemunha dessa existência tumultuosa, sem fim, que se alimenta de esperança azul. É azul a minha esperança. É azul de vários azuis. Com uma pincelada de amarelo brilhante é o murmúrio do segredo que as verdades me segredam. É ele, o meu anjo, que me sussurra. É ele o azul dos azuis das verdades que me têm de ser ditas. As verdades reflectidas nos espelhos, mesmo que bradadas, são murmúrios azuis do azul do meu céu, do meu mar, do meu anjo. E enquanto aqui, perdida, fujo da desonra, da ruína, da desgraça de ser infeliz.
Ao ler as verdades dos gestos, trejeitos e pensamentos reflectidas no espelho que miro encontro a aragem e a força para assinar o meu nome no céu porque eu estou aqui, para ti, para nós.

CRISTINA BRANDÃO LAVENDER
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