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Foi acontecendo. Aqueles que eram seus aperaltavam-se, corriam dentro e fora do seu campo de visão – saltos altos e perfume, gravatas e after-shave, gritos e gargalhadas e sacolas às costas. Fugiam dali e vinha o silêncio. Já não conhecia o parque, mas conhecia a doença. Já não conhecia os filhos, mas conhecia humanos com quem se cruzava, a quem procurava, num desespero de linguagem, numa fome de afectos, numa sede de existência. Ninguém mais o quisera. Os que dantes eram seus ficaram incógnitos, foram-no colocando a um canto, sem o olharem de frente, sem lhe perguntarem qual era o segredo, apertando o degredo. Zé passou a ser incómodo, empecilho sem resposta.

Tudo começou devagar, como devagar se fazia a vida no seu tempo. Primeiro deixaram de o levar para a mesa, depois escolheram um canto na sala, com uma caixa de imagens à sua frente que mostrava espaços que Zé não sabia de onde, aonde não se enxergava, de onde mesmo: fugia. Zé não se lembrava. Havia muitas coisas que Zé ia esquecendo e esse facto foi variando com o dia, a hora e o local em que se via. Ninguém conseguia determinar, desenhar um padrão de como é que nele se manifestava aquele incompreensível esquecimento. As pernas foram ficando fracas e, sempre e sempre sentado, Zé virou passageiro de lugar cativo. Por fim, confiaram-no a uma cama de grades de mãos atadas, com correias de algodão grosso. Zé gritava. Zé chorava, e se solto batia nas paredes, num balançar furioso dos punhos enrugados. Era o espaço do seu cativeiro.

Um dia, Zé acordou, num espaço mais escuro e gelado, deitado no chão, sem ataduras, envolto numa manta. Fechou os olhos e abalou dali, livre do mundo, num planeta novo, numa mega obra: só dele e para ele. O seu mal foi abrir os olhos. Com a mão que sempre tremia apalpou o lugar ao seu redor para sentir os óculos. Deixava-os sempre debaixo da almofada. Não estavam. Tinha frio. Tiritava com o gelo daquele local tão húmido como as suas calças. Ninguém o queria na família, nas férias, nem por companhia. Pertencia agora a nenhures. Mataram vivo o Zé. Encafuaram-no naquele túmulo de pequena janela rectangular por onde apenas se via, se noite, se dia. Mas Zé sabia o que queria. E ali, trancado, sem óculos, impotente, molhado, coberto de matéria fecal, viajava de olhos fechados mundo afora, passageiro solitário, partindo em passeio, livre, parindo um planeta novo, numa mega obra: só dele e para ele.

Puta que os pariu: digo-te eu. Esta humanidade não é mesmo grande coisa.

Cristina Brandão Lavender

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